A Construção – À Espera do Trem

Após um longo período de esperas e incertezas, eis que, finalmente, a 23 de dezembro de 1859 foram colocadas à venda, na praça de Londres, as ações da São Paulo  Railway Company Lt.

Fomos encontrar essa notícia, em uma manifestação do Sr.  Barão de Mauá, meses após esse fato ter ocorrido, notícia essa publicada no jornal Revista Commercial da cidade de Santos em 15-06-1860.

 

06-15-noticias-barao-de-maua-poe-a-venda-acoes-da-ferrovia-para-aqueles-que-nao-conseguiram-compra-las-1-rev-com
Início da notícia de 15-06-1860
06-15-noticias-barao-de-maua-poe-a-venda-acoes-da-ferrovia-para-aqueles-que-nao-conseguiram-compra-las-2-rev-com
Término da notícia de 15-06-1860

O que motivou a atitude de Mauá foi o mesmo ter colocado parte das ações da ferrovia à disposição dos brasileiros, pois havia grande descontentamento por terem as ações, a princípio, sido oferecidas somente aos ingleses.

 

Uma vez constituída a empresa, não poderia ser de outra forma – os paulistas entraram em grande expectativa, não vendo a hora de serem iniciados os trabalhos de construção daquela que seria a primeira estrada de ferro da província.

E foi assim que a 08 de janeiro de 1860 a legação brasileira em Londres comunicava ao Exmo. Sr. Presidente da Província de São Paulo a constituição definitiva da companhia da estrada de ferro, nos resumidos termos abaixo, publicados em 14-02 desse ano:

 

“Ilm. e Exm. Sr. – Tenho a honra de communicar a V. Ex. que a empreza da estrada de ferro dessa província acaba de ser levada ao publico com o mais feliz successo, sendo as acções |lançadas no mercado tão bem acolhidas, que o capital foi logo amplamente subscripto … Já n’este vapor segue para Santos o engenheiro da companhia, Mr. Daniel Makinson Fox … para dar os primeiros passos a fim de começarem os trabalhos da estrada. … Ao Illm. e Exm. Sr. José Joaquim Tavares Torres.”

 

Início da notícia de 08-01-1860

 

Já a 03 de fevereiro o jornal Revista Commercial noticiava, com orgulho, a constituição definitiva da companhia da estrada de ferro.

 

02-03-santos-pedido-de-comemoracao-pela-organizacao-definitiva-da-estrada-rev-com
Notícia de 03-02-1860

“Para solemnisar-se o profundo regozijo sentido pelos habitantes d’esta cidade pela noticia da organisação definitiva em Londres da companhia da estrada de ferro d’esta cidade a Jundiahy, roga-se a todas as pessoas queirão illuminar a frente de suas casas na noite de hoje, 3 do corrente”.

 

Esta notícia, por mais simples que seja, mostra o quanto o povo santista estava ansioso pela grande novidade.

A 17 desse mesmo mês era noticiado que Fox desembarcava em Santos vindo da Corte, pelo vapor Piratininga.

Com certeza, ele já vinha para os últimos preparativos para o início dos trabalhos.

A cidade se agitava.

As opiniões ganhavam as páginas do jornal. A maioria se manifestava com grande entusiasmo, enquanto alguns questionavam os termos do contrato, e outros não viam vantagens na ferrovia.

Vejamos algumas notícias:

A 07 de fevereiro o jornal publicava em seu editorial:

“… A organisacão, na praça de Londres, da companhia da estrada de ferro de Santos a Jundiahy, trará com effeito a solução de muitas questões vitais para esta parte do Brazil”.

Já ha muito tempo o nosso café é exportado directamente; a grande quantidade de mercadorias estrangeiras que esta Provincia consome, é conhecida: – qual o obstaculo que se oppõe a importação directa de todos os gêneros, que tão caros importamos por intermedio do Rio de Janeiro?…”

Início da notícia de 07-02-1860

Em 09 de março publicava-se enorme crítica aos termos do contrato, tanto por seu alto custo, quanto pela pouca utilidade que se via na ferrovia.

 

“… Os empresarios terão infalivelmente de introduzir n’ella avultado numero de trabalhadores, e estes, sendo exclusivamente consumidores, o augmento da carestia alimenticia domiciliaria, que já soffre a provincia como suas irmãs, pelas consequencias do desenvolvimento material originasado da capital do imperio, é de intuitiva evidencia.

Assim, pois, o cofre provincial sem dinheiro para pagar a garantia de juros, e a situação economica da provincia summamente aggravada, qual é a utilidade que leva a S. Paulo essa estrada de ferro que, para S. Paulo, ha-de ser verdadeiramente de ferro, enquanto para alguem terá sido e será de ouro? …”

Início da notícia de 09-03-1860

O debate seguia firme, mas sempre com maioria a favor da ferrovia.

 

Em 13 de março era publicada ata da Câmara de Vereadores de Santos, onde um de seus membros assim se expressava:

 

03-13-santos-camara-municipal-oficia-aos-diplomatas-em-londres-em-agradecimento-aos-esforcos-pela-ferrovia-1-rev-com
Início da 1ª notícia de 13-03-1860

 

“O Sr. Silva fez a seguinte indicação que foi approvada;

“Proponho que a Camara municipal da cidade de Santos envie aos nossos diplomatas em Londres, os Exm. Srs. Francisco Ignacio de Carvalho Moreira, e Francisco Xavier da Costa Aguiar de Andrada, um voto de agradecimento pelos esforços que fizerão para concluir e organisar a Companhia da Estrada de ferro para esta Provincia de S. Paulo; a qual estrada com certeza nos vem trazer muita prosperidade, e assim a municipalidade da cidade de Santos, cujo porto é o mais importante desta Provincia, não deverá ficar sem dar um  publico testemunho de seu reconhecimento … proponho que igualmente se agradeça aos Srs. Conselheiros Pimenta Bueno, Marquez de Mont’Alegre, e barão de Mauá, pela iniciativa que tomarão a empreza da Estrada de ferro desta Provincia. Paço da camara municipal de Santos 25 de fevereiro de 1860.”

 

Enquanto os debates e esperanças agitavam a todos, os preparativos para o início da construção seguiam em frente, e os ingleses não perdiam tempo. Afinal havia pressa pois quanto mais rápida ficasse pronta a obra, mais rápido viriam os lucros.

Nesse mesmo dia 13 publicava-se a notícia:

 

03-13-construcao-chegada-dos-primeiros-engenheiros-para-a-ferrovia-rev-com
2ª notícia de 13-03-1860

“No vapor Piratininga que entrou hontem, já chegarão alguns empregados da engenharia da estrada de ferro.

Consta-nos que se acha em viagem de Londres para este porto uma embarcação de vela carregada de material da mesma estrada, e que os trabalhos começarão por todo o mez de abril.

Espera-se a vinda do Sr. Aubertin superintendente da companhia.”

 

E a 10 de abril outra notícia de esperança:

 

04-10-construcao-chegada-de-pessoal-para-a-ferrovia-rev-com
Notícia de 10-04-1860

“Chegárão a esta cidade no vapor Pirahy, algumas pessoas que fazem parte do pessoal da empreza da estrada de ferro, vindas no ultimo paquete da Europa: espera-se a todo o momento o navio que conduz os materiais para a mesma empreza.”

 

O entusiasmo da sociedade santista com a chegada da ferrovia foi de tal sorte que as despesas com os festejos tiveram prestação de contas pela Câmara Municipal.

Em 19 de junho lia-se:

“… Commissão nomeada pela Camara Municipal em festejo da inauguração da Estrada de ferro d’esta cidade a Jundiahy.

A saber: …

Despeza. Rs. 2:703$670.

Receita.   Rs. 2:703$670 (vide nota).

Santos, 11 de junho de 1860.

O Thesoureiro, Theodoro de M. Forjáz.”

(notas do autor: 1 – dois contos, setecentos e três mil e seiscentos e setenta reis. 2 – Deixou-se de discriminar toda despesa para simplificação da apresentação)

 

Íntegra da notícia de 19-06-1860

Finalmente, vamos mencionar um trecho de uma longa manifestação a favor da ferrovia; manifestação essa, publicada em 08 de maio, quase na data do início dos trabalhos de construção da mesma.

O autor da matéria enxergava com clareza os benefícios que a ferrovia traria para a província.

 

05-08-opinioes-analise-sobre-vantagens-e-desvantagens-da-construcao-da-ferrovia-6-rev-com
Trecho intermediário da notícia de 08-05-1860

“… Despertemos a attenção dos grandes agricultores para o plantio em grande escala dos generos alimenticios, a par da reforma de seus processos, à fim de economisarem braços, e dobrar a producção.

Lembremos a todos o desenvolvimento que vão ter as industrias, e a facilidade com que numerosas classes multiplicarão seus lucros e seus interesses.

A animação e o desenvolvimento farão brotar recursos, donde menos se espera, e longe de empobrecermos, é de esperar que a riqueza particular e publica tenha grande incremento, apenas forem encetados os trabalhos, se souber-mos manejar nossa actividade, e tirar partido dos elementos que taes emprezas acarretão. …”

 

 

 

 

Continue o estudo da construção da ferrovia, pelo próximo assunto:

A Estação do Valongo

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