A Construção – A Chegada dos Materiais

Por volta de 1860, ano em que foi iniciada a construção da SPR, o porto de Santos não passava de um primitivo atracadouro, em meio a um manguezal – não havia cais.

O movimento de navios era pequeno, pois os navios de bandeiras diversas, ao virem para o Brasil, faziam escalas no Rio de Janeiro, e passageiros e cargas faziam baldeação para navios de cabotagem que circulavam pela costa.

Além do movimento, os navios também eram pequenos e, por essa razão podiam ficar fundeados no canal entre a Ilha de São Vicente e a Ilha de Santo Amaro.

Vejamos no adendo as fotos de dois dos maiores fotógrafos do século XIX – Marc Ferrez e Militão Augusto de Azevedo.

No entanto, esse pequeno movimento já era registrado nas páginas do jornal Revista Commercial.

Sempre se anotava a procedência ou destino do navio, tempo de viagem, seu tipo, seu nome, sua tonelagem, o nome de seu comandante, quantos marinheiros estavam a bordo, carga e o destinatário da mesma. Caso transportasse passageiros, era comum vir a relação de todos os nomes.

Foi através desses registros que se tornou possível o trabalho a seguir.

Vejamos um exemplo publicado em 30-11-1860:

MOVIMENTO DO PORTO

Sahidas 

Dia 28 – Rio de Janeiro – Vapor Piratininga, commandante Pereira da Cunha, carga varios generos, e 101 passageiros.

Entradas

Dia 28 – Rio de Janeiro – 24 horas – Vapor Pirahy – commandante M. Ferreira, carga varios generos a Arruda, e 22 passageiros.

>> Glasgow – 56 dias – Barca americana Sebra Crooker, toneladas ?, commandante M. Staples, equipagem 11, carga materiaes para a estrada de ferro a Aubertin.”

Notícia de 30-11-1860

Por esse exemplo vemos que, por se tratar de material para a ferrovia, os navios vinham direto para o porto de Santos.

Uma vez que a construção da ferrovia ocupava grande parte da preocupação do povo santista, vamos também encontrar notícias da chegada dos navios, no noticiário geral.

Vejamos um exemplo, na publicação do dia 12-05-1860, portanto, três dias antes do início das obras:

“Entrou no dia 28 neste porto o brigue inglez Statesman, procedente de Falmouth, trazendo o primeiro transporte de materiaes para a estrada de ferro desta provincia; espera-se a toda a hora um navio, que anteriormente sahíra de Londres, com outro carregamento de materiaes.”

Notícia de 12-05-1860

Essa notícia foi um pouco mais extensa que as demais, talvez pelo fato de ter sido a primeira.

Vejamos um exemplo de todas as outras.

 

Publicação de 28-08-1860:

“Entrou no dia 25 a sexta embarcação com materiaes para a Estrada de ferro desta Provincia.”

Notícia de 28-08-1860

Acompanhando estas últimas informações vamos encontrar, para cada ano, o total de entradas, bem como a anotação da última chegada:

1860 – 10 navios – 21-12

“Entrou hontem de New-Port o decimo carregamento de materiaes para a estrada de ferro d’esta Provincia.”

Notícia de 21-12-1860

1861 – 8 navios – 14-12

“Entrou hontem de Glasgow a 18ª embarcação, carregada de materiaes para a estrada de ferro d’esta Provincia.”

Notícia de 14-12-1861

1862 – 19 navios – 27-11

“Entrou de Liverpool a 37ª embarcação com materiaes para a estrada de ferro d’esta Provincia.”

Notícia de 27-11-1862

186318 navios – 31-12

“Liverpool – 75 dias – brigue holandez Bato – 206 toneladas, commandante M. Huisen, equipagem 7, carga materiaes para a estrada de ferro, a Mauá & C.”

(Nota do autor: esta foi a 56ª embarcação.)

Notícia de 31-12-1863

1864 – 18 navios – 24-12

“Estrada de ferro. Entrou o 73º carregamento de materiaes.”

Notícia de 24-12-1864

1865 – 24 navios – 28-10

“Estrada de ferro. – Entrou a 97ª embarcação com materiaes.”

Notícia de 28-10-1865

Esta chegada acima foi a última em que o jornal publicou a ordem de chegada, no entanto, nos anos de 1866 e 1867, tivemos mais algumas chegadas de materiais, além de encontrar-mos a chegada de alguns navios com carregamento de carvão de pedra, quando a ferrovia já estava em operação.

Dessa forma, pudemos verificar que de 1860 a 1867 entraram no porto de Santos mais de 100 embarcações com materiais destinados aos construtores.

Notas do autor:

1 – 90% dos carregamentos tiveram origem nas cidades de Liverpool (Inglaterra) e Glasgow (Escócia). Em seguida tivemos alguns carregamentos de Newport, Falmouth e Sunderland (as três na Inglaterra), Cardiff (Pais de Gales), com 4 carregamentos de carvão, Rio de Janeiro, com 2 carregamentos de carvão.

2 – As pesquisas após o ano de 1867 foram feitas de formas isoladas, não comportando menção neste trabalho.

Vamos, agora, tomar alguns exemplos do tempo de viagem, em dias, desses navios entre os portos de origem e o porto de Santos.

56, 68, 56, 66, 65, 60, 72, 65, 62, 62, 68, 50, 68, 63, 56, 84, 43, 56, 75, 54.

Para essas 20 viagens tivemos uma média de 62 dias, sendo a mais rápida em 43 dias, e a mais demorada em 84 dias.

Entre a mais rápida e a mais demorada tivemos um intervalo de 41 dias; tendo a mais rápida, portanto, levado quase metade do tempo de viagem da mais demorada.

É difícil saber a razão dessa diferença, uma vez que os portos de origem eram próximos uns dos outros.

Uma vez que a grande maioria dos navios era à vela, essa diferença deve ter sido causada por ventos, correntes marítimas ou, mesmo, tempestades e avarias diversas.

Finalmente, é importante abordarmos como se procedia ao desembarque de toda essa mercadoria, uma vez que, como vimos, o porto de Santos não possuía cais, e seus trapiches eram toscos e de madeira, não se prestando para o desembarque de material de grande peso.

Uma vez que os ingleses tinham conhecimento desse fato solicitaram, ao governo, autorização para a construção de um trapiche em terra e pedras, por onde os trens poderiam chegar junto aos navios.

Foram autorizados e o construíram.

Publicação de 26-04-1861, referente ao expediente da Câmara Municipal local:

“Leu-se. – Officio do Exm. presidente da Provincia, de 20 do corrente, determinando que a camara informe com urgencia sobre o requerimento incluso da companhia da Estrada de ferro desta cidade a Jundiahy, acompanhado de uma planta topographica para a construcção de cáes nesta mesma cidade, para facilitar o embarque e o desembarque das mercadorias, que tiverem que ser transportadas para a via ferrea em construcção. – Resolveu-se responder, que a camara acha de muita utilidade o cáes projectado, salvo qualquer inconveniente que por ventura possa resultar do systema de construcção adoptado, o que só póde ser apreciado por pessoa professional, votando contra a ultima parte os Srs. Forjaz, Barbosa e Largacha.”

Notícia de 26-04-1861

 

Chegamos a uma última observação:

Vamos ver a tela de Benedito Calixto

 

santos-porto-66-1907-benedito-calixto-acervo-instituto-ricardo-brennand-recife
 

Este cais, adentrando o canal, pode ser visto em fotos do porto, daquela ocasião, mas principalmente na belíssima tela de Benedito Calixto, pertencente ao acervo do Instituto Ricardo Brennand em Recife.

(Nota do autor: Como toda obra de Calixto, deve-se dar um desconto à mesma por suas imprecisões. Nessa mencionada, o trem está longo demais. Se o primeiro vagão estivesse sendo carregado, os últimos cairiam no canal.)

Mas ela é bonita assim mesmo!

 

 

 

 

 

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