A Construção – A Estação do Valongo

Enquanto em outras cidades do estado, tais como São Paulo, Jundiaí, Campinas, Piracicaba, Limeira, Mogi Mirim e Itu, havia uma grande expectativa pela novidade em nosso território, Santos se agitava por um problema peculiar a ela, e só ela poderia resolver a questão – onde deveria ser construída a estação ferroviária?

Os ingleses sabiam que teria que haver dois terminais – um para mercadorias, no “cais”, e outro, nas proximidades, para passageiros.

Quanto ao primeiro não havia questionamento, pois na realidade, nem cais havia. Os navios ancoravam ao largo, no canal, e recebiam e descarregavam mercadorias e passageiros através de barcas que faziam o percurso entre eles e a terra. Também eram utilizados os trapiches, que não passavam de toscas passarelas de madeira em meio ao mangue.

Já quanto ao terminal de passageiros os ingleses jamais poderiam imaginar o litígio que teriam que enfrentar com a população santista.

Vamos ver o que aconteceu:

No bairro do Valongo, que ficava logo na entrada da cidade, para quem chegava de São Paulo ou Cubatão, havia a Igreja de Santo Antonio, e ao seu lado o convento de mesmo nome. E foi justamente ali que os engenheiros resolveram construir o terminal de passageiros e edifícios operacionais.

Compraram briga!

A população foi à luta para defender “a casa de Deus”.

Alguns até aceitavam que o convento fosse demolido, mas a igreja jamais. Outros não aceitavam a demolição nem de um, nem de outro.

Pouco antes do início da obras, que iriam ser iniciadas em 15 de maio, surgiu a seguinte manifestação contrária à demolição pretendida.

A 24 de abril assim se lia nas páginas do jornal Revista Commercial:

“Está decidido que a estação da estrada de ferro tem de ser assentada no lugar em que está o Convento de St. Antonio e Ordem 3ª da Penitencia, fundados a duzentos e tantos annos. Era necessario que apparecesse a estrada de ferro para serem destruidos esses Templos. Não lhes doeu a consciencia para destruição dos melhores edificios desta cidade, o que já não é melhoramento; mas é progresso dos seculos das luzes.

As  estradas no Brasil têm trazido a praga de serem começadas pela destruição dos Templos, levantados à Santa Religião de Jesus Christo, para serem profanados; e hoje que nem sequer se conservão os que existem, quanto mais fazel-os de novo. A consternação é geral no povo; … vê-se claramente, que Santos offerece outras localidades sufficientes, e talvez com melhores proporções para ser collocada a estação, se não fosse o desejo e mania de destruir as Igrejas para serem convertidas em armazem de carga etc.

O Convento de St. Antonio foi construido com esmolas do povo, …Se as Igrejas em Santos ja erão poucas, como ainda destruir-se o dito Convento e Ordem 3ª que servem de Matriz para os moradores do Valongo, rua de St. Antonio, etc, etc.; pela longitude em que estão do Convento do Carmo e Matriz?”

Início da notícia de 24-04-1860
Trecho intermediário da notícia de 24-04-1860
Término da notícia de 24-04-1860

Essa foi um das maiores manifestações contrárias as referidas demolições, no entanto, outras surgiriam no decorrer dos dias.

Em primeiro de maio um leitor assim se manifestou:

“SUPPLICA. Sendo geral o descontentamento dos habitantes desta cidade, com a noticia de ser demolida a igreja de S. Antonio e Ordem 3ª de S. Francisco, para dar lugar a estação da estrada de ferro, os emprezarios farão grande serviço a esta cidade e a seus filhos se recuando um pouco para o lado, ou para atraz, poupassem a igreja. Esta é um monumento de sua crença conservado pela veneração publica ao Culto Divino, e respeito a seus maiores. (a) Um velho.”

Notícia de 1º-05-1860

No dia do início das obras a redação do jornal publicava seu pequeno editorial, em resposta ao seu correspondente no Rio de Janeiro, que também havia se manifestado contrário à referida demolição:

“(*) Com quanto partilhemos a justa indignação de que se possue o nosso correspondente, relativamente a perda do melhor templo desta cidade, todavia não adherimos as suas idéas sobre o futuro que nos trará a estrada de ferro; consentimos que as primeiras consequencias sejão desagradaveis para muita gente, mas cremos firmemente que o incremento da riqueza publica e a prosperidade geral em poucos annos nos mostrará que as angustias e receio de um futuro risonho não passarão de meras apprehensões. Breve voltaremos ao assunto. (a) A redacção.”

Notícia de 15-05-1860

Dentre tantos outros comentários eis que surge da Inglaterra o comentário de um santista que por lá se encontrava:

Revista Commercial de 17-07:

“(Extrahido de uma carta de um Santista catholico apostolico romano, em Inglaterra, a um amigo em Santos). Londres, 8 de junho de 1860.

……. Valha-me Deos com esses ignorantes carolas! … O que tem Judas com a alma de Christo?!… Pois é heresia derrubar um convento já em ruinas, padrão vergonhoso do nosso desleixo para com os templos de nossa religião, para sobre o seu local erigir-se uma estação de um caminho de ferro, que trará a riqueza e prosperidade dessa misera cidade, que cada vez ia definhando mais e empobrecendo por falta de recursos do estrangeiro e do interior da Provincia? O que é melhor – que meia duzia de carolas hypocritas, que nem mesmo comprehendem os preceitos da religião que dizem seguir, oução missa de madrugada em Santo Antonio (e porque não em São Bento?) …

O que é preferivel – que continuem a haver trezenas e novenas em Santo Antonio, para pagode da rapaziada, reunião da immoralidade – ou que essa cidade prospere em poucos annos? …se está provado que esse é o local mais conveniente para a estação, porque impedir que seja derrubado um edificio velho e desmoronado, que já não é habitado, que para nada mais presta, e que só serve para as taes missas de madrugada, rendez-vous geral de bandalheira e pretexto para outras, que só serve para as taes novenas ou trezenas, sarambeque dos amigos das brincadeiras immoraes, com creoulas e mulatas, frequentadoras inseparaveis dessas reuniões nocturnas, sob o pretexto e mascara da religião! (assignado) A. de A.”

 

Início da notícia de 17-07-1860

 

Término da notícia de 17-07-1860

 

Deve-se salientar que essas discussões todas, ocorridas na época, não se limitaram à derrubada dos “santos” imóveis na cidade de Santos; elas também se estenderam à própria construção da estrada de ferro.

Vejamos esse fato em duas belas obras de dois ilustres poetas santistas.

A primeira poesia foi recitada no ato do início dos trabalhos de construção, no dia 15 de maio, e publicada em 18 desse mês. Logicamente, foi um grande elogio ao acontecimento.

Já a segunda foi um engraçadíssimo arremedo, de quem era contrário a essa obra.

Vejamos a primeira:

“Ao dia 15 de maio, dia da inauguração (sic) da estrada de ferro.

Salve, oh terra abençoada,

Nobre patria dos Andradas,

Ergue a fronte laureada,

De flores engrinaldadas.    

 

Rompeu-se emfim a barreira,

Que o teu futuro prendia;

Ergue hoje o collo altaneira,

Do teu porvir surge o dia!

 

Por mais tempo não pôde o acerbo fado

Teu destino prender;

Rompêrão-se as cadêas, e mudado

Forçoso foi ceder.

 

Os fructos de teu solo abençoado,

Não mais serão perdidos,

E entre os povos do mundo confundidos,

Farão tua riqueza.

 

A altiva serra escabrosa

De densa matta eriçada,

Ante o progresso curvada,

Breve humilde e respeitosa,

Se tornará magestosa,

Dos productos franca estrada

Desta terra abençoada.

 

Salve, oh terra abençoada,

Nobre patria dos Andradas,

Ergue a fronte laureada

De flores engrinaldadas!

 

Rompeu-se emfim a barreira,

Que o teu futuro prendia,

Ergue hoje o collo altaneira,

Do teu porvir surge o dia!

 A. Pinto Junior.”

 

Vamos à segunda:

 

“Chora, terra amaldiçoada,

Infeliz patria dos Andradas;

Abaixa a fronte envergonhada

De dôres nunca esperadas.

 

Rompeu-se alfim o bom senso,

Que te guardava outr’ora;

Abaixa hoje o collo amedrontada;

Da tua desgraça nasce a aurora.

 

Por mais tempo não quiz o acerbo fado

Teu destino respeitar,

Chegou-te o louco enthusiasmo, e, mudado,

Forçoso te foi acceitar.

 

Os fructos do teu solo amaldiçoado

Não mais serão aproveitados

Ao “progresso” e á irreligião comndenados

Farão tua pobreza.

 

A serra altiva e honrosa,

De linda matta ornada,

Ante o “progresso” curvada,

Breve humilde, e medrosa,

Se tornará espantosa

À miseria abrindo estrada

Nesta terra amaldiçoada,

 

Chora, terra infeliz, que a natureza

Dotou prodigamente:

Das terras de Cabral eras a princeza

Rainha Omnipotente!

 

 

Chora, terra amaldiçoada,

Infeliz patria dos Andradas;

Abaixa a fronte envergonhada

De dôres nunca esperadas.

 

Rompeu-se alfim o bom senso

Que te guardava outr’ora;

Abaixa hoje o collo amedrontada;

Da tua desgraça nasce a aurora.”

 

Vimos acima o quanto foi polêmica a construção de nossa primeira estrada de ferro, bem como de sua estação na cidade de Santos.

E afinal, qual foi o desfecho de toda essa história relativa à estação do Valongo?

Talvez possamos dizer que tenha sido glorioso para todos!

É preciso não deixar de citar que uma grande personalidade de nosso país entrou nessa história toda.

Irineu Evangelista de Souza – Barão e Visconde de Mauá – vindo da Corte para a cidade praiana, fez valer sua influência, bom senso e dignidade, e conseguiu com os ingleses, que estes mantivessem a Igreja de Santo Antonio em pé, sendo derrubado apenas o convento. Podemos ver, até os dias de hoje, ambos os edifícios, lado a lado – Igreja de Santo Antonio e a antiga Estação do Valongo (hoje patrimônio santista).

Ao serem tecidos agradecimentos a esse ilustre brasileiro, também foi feita, mais uma vez, uma homenagem a essa grande obra.

Vejamos a Revista Commercial de 08 de junho:

“Duas palavras sobre a iniciação da Estrada de ferro n’esta Provincia.

Um assumpto cheio de interesse tem occupado n’estes ultimos dias a attenção publica, e sobre a qual vamos falar.

Parece fora de duvida que o Ilustre Sr. Barão de Mauá, de que a Provincia de S. Paulo só pode fallar com sincera gratidão e enthusiasmo, ouviu a supplica dos Santistas, e talvez com sacrificios consideraveis, acordou em mudar do lugar ja designado a Estação da Estrada de ferro, salvando assim da profanação o templo de Santo Antonio. … 

Julgamos de nosso dever, e o mesmo esperado de nossos concidadãos, dar um voto de agradecimento á esse cavalheiro, que tão dignamente procura suavisar os meios de chegar ao benefico desideratum que ardentemente desejamos, e do qual S. Ex. é um dos mais zelosos propugnadores.

Nosso fim pois, … é agradecer ao Sr. Barão de Mauá a generosidade com que se houve na questão da Igreja de Santo Antonio, e também lembrar a alguns de nossos patricios, que trata-se actualmente de iniciar na Provincia o melhoramento sem o qual teriamos ainda de repetir por longos annos esse estribilho incessante e desagradavel: a causa de nossa desgraça é a falta de viabilidade etc, etc,; …” 

(Nota do autor: alguns pesquisadores mencionam o fato de que teria surgido, na ocasião, menção a um milagre, pois os trabalhadores não conseguiram remover a imagem de Santo Antonio, do altar. Em momento algum este pesquisador encontrou referência a esse fato.)

Início da notícia de 08-06-1860

 

 

2ª parte da notícia de 08-06-1860

 

3ª parte da notícia de 08-06-1860

 

4ª parte da notícia de 08-06-1860

 

Final da notícia de 08-06-1860

 

É difícil dizer o quanto esses elogios e críticas afetaram o ânimo dos ingleses, tanto os representantes da empresa, quanto os empreiteiros responsáveis pelas obras.

Dentre os primeiros temos a figura maior de John James Aubertin, superintendente da estrada de ferro de São Pulo. Mais conhecido como J. J. Aubertin foi ele um incansável batalhador pela ferrovia. Por inúmeras vezes compareceu pessoalmente, ou pela imprensa, para dar explicações sobre a importância da mesma, bem como sobre os problemas surgidos durante as obras (problemas esses que iremos abordar mais à frente).

Com postura extremamente elegante ganhou a admiração dos paulistas, não só pela maneira cordial com que expunha suas idéias, mas também por dar mostras de profundo interesse pelo progresso de nossa terra.

Durante todo o período de construção, esteve à frente de sua equipe, procurando orientar nosso povo a respeito das melhores culturas para nossas terras. Procurou de todas as formas estimular os agricultores a extraírem os melhores benefícios que a terra poderia dar, agora que haveria transporte digno para nosso porto maior.

É evidente que parte desse interesse se devia ao fato de que a própria Inglaterra iria se beneficiar de uma agricultura de exportação, principalmente a do algodão, pois em conseqüência da Guerra de Secessão nos Estados Unidos (1861-1865) as exportações desse produto ficaram enormemente prejudicadas em virtude do bloqueio dos portos do Sul pela frota naval do Norte. Com esse bloqueio muitas das fortíssimas indústrias têxteis inglesas se viram obrigadas a fechar suas portas, com a dispensa de dezenas de milhares de trabalhadores (durante as pesquisas, o autor pode acompanhar fatos como esses no noticiário internacional).

Além do interesse maior inglês, havia também o interesse da própria ferrovia, pois lucraria com o transporte de nossa hinterlândia até o porto santista.

No entanto, apesar destas considerações, a polidez desse verdadeiro gentleman angariou a simpatia de todos que com ele conviveram, ou leram suas pacienciosas explicações nos jornais paulistas.

Dentre os segundos a figura maior era de Robert Sharpe, que incansavelmente tinha que responder aos intermináveis ofícios governamentais que cobravam explicações a respeito dos problemas ocorridos durante as obras.

 

O povo reclamava – o governo cobrava – os empreiteiros explicavam!

 

Em relação à Estação do Valongo, vamos ver que a situação foi se acalmando e já no ano de 1860 encontramos a municipalidade preocupada na reurbanização da área. Vereadores solicitavam alargamento de ruas próximas a ela. Moradores se mostravam preocupados com possíveis danos às suas moradias. A ferrovia solicitava novas desapropriações, bem como a utilização das águas da nascente do Morro de São Bento. Havia, também, a preocupação com a ocupação de área próxima à estação a fim de ser construído um cais, tão necessário para a atracação dos navios vindos da Grã-Bretanha com carregamentos para as obras.

Alguns comerciantes procuravam melhorar seus estabelecimentos, tais como hotéis e lojas de produtos diversos, enquanto firmas de importação e exportação corriam para garantir os melhores locais para se instalarem.

Os comerciantes de melhor visão já antecipavam o quanto a cidade iria ganhar passando a exportar os produtos da província e importar diretamente os que ela consumia do exterior, sem depender da cidade do Rio de Janeiro. Dessa forma deixariam de pagar preços aviltados pelas mesmas, bem como se livrariam de despesas com fretes e impostos.

Enfim, a então acanhada cidade de Santos, tão insalubre, com inúmeros problemas sanitários começava a respirar os novos ares. 

A São Paulo Railway, logo após o início de suas obras, já mostrava o porquê dos ingleses haverem chegado.

 

Continue o estudo da construção da ferrovia, pelo próximo assunto:

O Início das Obras

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