A Construção – O Aterrado do Cubatão

Muitos pesquisadores apontam a Serra de Paranapiacaba como sendo o local onde os ingleses enfrentaram seus maiores problemas.

Em parte isso é verdadeiro, mas, por outro lado pode-se dizer que o aterrado do Cubatão foi “a forca e a fogueira” inglesa em solo paulista.

É preciso lembrar, em primeiro lugar, que as obras na serra não interferiram na vida cotidiana de então, pois foram realizadas em região totalmente desprovida de habitações ou de servidão de passagem.

Os inúmeros problemas que por lá surgiram afetaram somente os empreiteiros e os trabalhadores.

E o aterrado? Vamos conhecê-lo!

É sabido que o litoral paulista, além de belas praias, é constituído, em grande parte, de infindáveis manguezais, e estes se fazem fortemente presentes na região compreendida entre as cidades de Santos e Cubatão.

Tanto na parte continental, quanto na Ilha de São Vicente, onde se localiza Santos, há poucas áreas desprovidas dessa vegetação. Pode-se observar que a grande ocupação urbana se fez, e se faz, sobre grandes aterros.

Voltando no tempo, vamos até a época de nossos indígenas que habitavam a região. Estes, quando queriam descer a encosta serrana até o litoral, não iam por terra até as praias. Ao chegarem à raiz da serra faziam uso de canoas que seguiam pelo canal, ou à direita em direção a atual São Vicente, ou à esquerda onde hoje se localiza Santos.

A razão era muito simples – a ilha era praticamente intransitável. Mangue e charque eram os grandes obstáculos.

Este obstáculo também foi sentido pelos primeiros europeus que por lá chegaram. Seguindo o exemplo indígena faziam o mesmo milenar trajeto.

Com o passar do tempo, uma maior comunicação do litoral com o planalto tornou-se necessária; era preciso uma via mais rápida para o transporte. A solução não poderia ser outra senão aterrar o mangue.

Muito antes do início das obras da ferrovia já havia uma estrada em terra para pedestres ou tropas de mulas. No entanto, por falta de recursos, esse aterrado era estreito e possuía pouca altura, e era cotidianamente alagado por ocasião das marés altas. Era necessário interromper a viagem até que a maré baixasse.

Esse aterrado é hoje a antiga estrada Santos-Cubatão (à esquerda da Via Anchieta de quem desce a serra).

Uma vez que Daniel Fox, o engenheiro responsável pela obra, optou em levar os trilhos serra acima pelo vale do Rio Mogi, não havia outra solução senão fazer o aterrado ferroviário ao lado do antigo aterro. 

E ai nasceu o inferno inglês!

Desde o início da era ferroviária uma das melhores alternativas para se assentar os trilhos era posicionar um vagão gôndola na frente de uma locomotiva, e esta o ia empurrando, carregado com o material (trilhos, dormentes, brita, etc.). Na frente de trabalho a equipe ia fazendo o assentamento, enquanto a locomotiva retornava de ré, em busca de mais material.

Era isso que os empreiteiros pretendiam fazer.

Uma vez que todo o material viria por navios, e seria descarregado no porto santista, esse vai e vem, teria como ponto de partida o cais santista.

Além disso, os ingleses conseguiram autorização do governo provincial para utilizarem parte do antigo aterro, tanto no transporte de materiais, como no de pessoal.

Eis, no entanto, que nada da encantada locomotiva chegar.

O tempo foi passando e nada. Não foi encontrada uma notícia sequer para tal atraso.

Foi-se o ano de 1860 e, somente em 09 de novembro de 1861 publicou-se a notícia a seguir:

“O ultimo paquete de Southampton trouxe a noticia funesta da perda total da escuna Suzanna Elsina, carregada de materiaes para a estrada de ferro, entre os quaes, como consta, se achava a encantada locomotiva.”

Notícia de 09-11-1861

Seria gloriosa por ser a primeira em nosso solo, no entanto, foi gloriosa por ser a primeira a primeira a fazer transporte ferroviário submarino!

E os santistas a esperaram tanto!

Já pousavam sobre ela comentários de que não era nova e, sim, reformada. Aliás, essa desconfiança dizia respeito aos demais materiais vindos de terras britânicas.

Mas, o que tem a ver esse atraso na chegada da locomotiva, e seu posterior naufrágio, com o aterrado do Cubatão?

Ora, sem sua utilização, o aterrado foi a solução.

Este passou a sofrer uma enorme carga de transporte, para a qual não estava preparado.

Se antes servia tropas de mulas indo e vindo em direção ao planalto, doravante se viu sendo utilizado para um infindável movimento de centenas de mulas e trabalhadores a serviço da ferrovia.

Se o terreno era frágil e alagadiço, imagine-se o que aconteceu!

O transtorno foi geral. Além de um natural congestionamento, o solo cedeu. Virou um lamaçal, independente da maré.

 

geral-26-santos-a-cubatao-1930

Estrada Santos-Cubatão e ferrovia – 1930 – leito ferroviário ligeiramente acima da estrada de rodagem – foto web

Os  empreiteiros viram, então, que o leito ferroviário teria que ficar um patamar acima do antigo aterro, pois do contrário os trens poderiam ser impedidos de passar, por longos períodos.

Lá se foram eles atrás de mais terra e entulho.

E o movimento aumentou.

E o antigo aterro?

Chegou a submergir!

O caos foi geral.

Outro fator foi o fato de que, como vimos, o aterro original, além de ser estreito, teve parte cedida aos ingleses e, com isso, ficou mais estreito ainda.

Nos dias de hoje, com os enormes congestionamentos de veículos, em dias de feriado, é quase impossível se imaginar que nesse local houve enormes congestionamentos de mulas; enquanto tropas subiam, outras desciam.

E a maré subia!

E as mulas atolavam!

(queiram me perdoar, mas cheguei a rir muito ao ler essas intermináveis notícias e reclamações)

Havia, no entanto, dias em que era de se lamentar o grande número de mulas que se afogavam no mangue.

Surgiu ai, então, uma grave acusação contra os empreiteiros – terra do antigo aterro estava sendo retirada para ser colocada no aterro ferroviário.

Não ficou claro se era obra deliberada dos responsáveis, ou se obra de parte dos trabalhadores.

O fato é que, enquanto o aterro ferroviário ficava mais alto e seguro, o antigo ficava mais baixo e alagável.

Qual o resultado?

Revolta geral.

Infindáveis ofícios eram enviados ao governo provincial mas, o mais grave para os empreiteiros era a revolta dos tropeiros. Revoltados e, precisando passar com suas tropas, passaram a encaminhá-las para o leito ferroviário, que era muito mais seguro.

E um novo resultado surgiu!

O aterro ferroviário que já estava pronto, começou a ceder.

Os ingleses podiam ser os mais experientes em construção ferroviária, mas jamais poderiam imaginar, que um dia, por sua ferrovia iriam circular não trens, mas comboios de muares.

É difícil imaginar cenas como essas na construção da mais importante ferrovia da América Latina.

Aubertin, Fox, Brunless e outros, não sabiam que no Brasil isso acontecia.

Se soubessem, talvez tivessem cobrado uns juros a mais pelo trabalho. Devem ter voltado para a Inglaterra com o aterro em suas gargantas.

Vejamos várias dessas notícias, que ilustram o drama inglês em solo paulista.

Foram encontradas cerca de cinqüenta notícias relativas ao tema.

A primeira delas data de 24-05-1861 enquanto a última é de 09-01-1866, quando há quase um ano o trecho já estava ao tráfego entre Santos e Cubatão.

Reparem que o período é de quase cinco anos.

Vamos ao calvário de viajantes, comerciantes, tropeiros, empregados da ferrovia, empreiteiros e engenheiros ingleses.

Revista Commercial de 24-05-1861:

“PERGUNTA INNOCENTE!

Pergunta-se: é ou não é da competencia do empregado, mandado pelo governo, com o ordenado enorme de 6 CONTOS DE REIS, para fiscalisar os trabalhos da estrada de ferro – olhar para aquillo que ora se está practicando na estrada do Cubatão, e consentir a destruição da mesma?! (a) Z” 

1ª notícia de 24-05-1861

No mesmo dia o jornal publicava sua notícia:

“Chamamos a attenção do Sr. Fiscal do Governo da estrada de ferro, para os trabalhos actuais no caminho do Cubatão, de que resultarão por sem duvida embaraços muito sérios no transito frequentissimo das tropas.”

2ª notícia de 24-05-1861

Nesse dia ainda tivemos uma longa crítica, que merece ser reproduzida na integra, pois bem reflete o que acontecia:

 

“Sr. Redactor.

É impossivel que se não esteja practicando um grande abuso! A empreza da Estrada de ferro está destruindo a actual estrada d’esta cidade do Cubatão; pois está se cercando metade de sua largura, demolio-se grande parte da ponte de Saboó, reduzindo-se a estrada à metade ou á menos de sua largura, e ainda mais, tirando-se aterro d’essa pequena parte reservada ao transito actual, para collocar no leito da linha ferrea, que é a outra parte da mesma estrada. Alem do abuso, que cremos existir, virão infallivelmente inconvenientes incontestaveis, visto que a parte solida da estrada está toda aproveitada para a linha, ferrea, deixando-se apenas para o grande transito que temos de tropas, carros etc., a parte mais baixa, que com facilidade se tornará intransitavel com qualquer chuva, e muito mais, tirando-se ainda como se está fazendo d’essa parte, porção de aterro. Enfim, Sr. Redactor, clamemos por providencias porque o mal existe e muito grande, e está patente aos olhos de quem quizer ver, mas julgamos que quem deve isso fiscalisar, não vê, ou antes não quer ver. (a) O amigo do progresso sem abuso.”

3ª notícia de 24-05-1861

Se de um lado temos manifestações como essa, de outro, vemos os empreiteiros defendendo o seu interesse, e esse embate foi longe.

Como falei acima, chega até ser engraçado esta contenda, mas vejamos  o seguinte anúncio em 26-07 desse mesmo ano de 1861:

“50$000 (Nota do autor: cinquenta mil réis)

Sharpe & Filhos pagão 50$000 a quem descobrir a pessoa que vae arrancar as mudas de espinhos, que se plantão junto á cerca de páos, pertencente á estrada. Outro sim, declarão que fica pohibido o transito de qualquer pessoa na estrada, onde estão assentando os trilhos de ferro, e os animaes que se encontrarem serão recolhidos a deposito, para seus donos pagarem o danno causado.”

 

Notícia de 26-07-1861

Será impossível neste texto colocar todas as manifestações contrárias ao andamento das obras da ferrovia, mas alguns elucidam bem o drama ocorrido.

Vejamos este belo exemplo publicado em 26-09-1861: 

“- As abundantes chuvas, que principalmente durante os últimos oito dias sem interrupção cahirão, pôzerão a estrada d’esta cidade até o Cubatão no mais miseravel estado possivel. Affirmão os viajantes, que só com perigo de vida hoje se transita por este caminho, cujo estreito espaço, a que a estrada de ferro o tem reduzido, é um composto continuo de mil atoleiros e precipicios. As poucas tropas que como por milagre ainda vencem o trajecto, chegam tanto a gente como animaes e cargas no mais lastimoso estado. Dizem, que em diversos lugares os tropeiros arrancarão a cerca que separa o estreito caminho, e invadirão os trilhos a fim de salvarem as sua tropas. Pouco falta e a communicação estará completamente interrompida. Eis o resultado deploravel do demasiado estreitamento do caminho, resultado que todos previrão, menos quem devia ter providenciado, para que a desgraça não chegasse a esse ponto.”

Notícia de 26-09-1861

Vamos lembrar que até essa data a tão esperada locomotiva ainda não havia chegado, pois somente a 09 de novembro desse ano seria publicada a notícia do naufrágio do navio que a trazia.

Aproveitando a ocasião, é preciso ver a situação que ocorreu naquela oportunidade.

Há muito tempo esse transporte, por tropas de mulas, ocorria em nosso país. Essa era a maneira geral de locomoção por todo o interior.

A região sulina fornecia milhares de muares que eram vendidos em todas as regiões. Sem essas tropas a colonização seria impossível distanciar-se da costa marítima. Por essa razão os tropeiros eram vistos como pessoas importantes e que gozavam de grande influência junto aos produtores, pois sem eles tudo seria impossível.

Diante disso, não é difícil imaginar o quanto eles se sentiram desgastados com essa história de ferrovia em nossa província. Era óbvio que eles perderiam sua importância e teriam diminuído seu meio de ganhar a vida. Iriam fazer o transporte somente até a cidade de Jundiaí, pois daí para frente a tarefa seria dos trens, e era justamente até Santos onde eles mais lucravam, devido à dificuldade do percurso.

Não vamos tirar a razão dos mesmos diante do estrago que os empreiteiros causaram no aterrado, mas muito da destruição que causaram ao leito ferroviário se deve, sem dúvida, ao fator vingança, ao verem que seus dias estavam contados.

A situação realmente era difícil e, como já informamos, o superintendente da ferrovia – J. J. Aubertin – era incansável em suas explicações.

Vejamos esta em que ele endereçou ofício ao Sr. Presidente da Província.

Vamos a Revista Commercial de 17-10-1861:

“San Paulo (Brasilian) Railway Company Limited.

São Paulo, 7 de outubro de 1861.

Ilm. Exm. Sr.

De volta de Mogy da Serra (nota do autor: acampamento em Piassaguera, na raiz da serra), apresso-me a cumprir a promessa que fiz na ultima vez que tive a honra de estar com V. Ex., escrevendo sobre o assumpto da estrada entre Santos a Cubatão. Tenho o prazer de participar a V. Ex. que os emprezarios, em vista das necessidades que urgem, fazem tudo quanto está ao seu alcance, para obviar as difficuldades que existem; … Apezar porém da melhor boa vontade de acabar a estrada, … principalmente no que diz respeito ao alargar da mesma nos pontos invadidos por nossa linha vejo que isto é completamente impossivel antes da chegada da locomotiva. (grifo do autor)

Ao mesmo tempo cumpre-me informar a V. Ex. que nos peiores lugares do caminho, tem sido arrombadas as cercas pelos tropeiros que assim aproveitão a parte do aterrado por nós tomada para a nossa linha; n’este ponto portanto não tem elles rasão em queixarem-se da divisão que fizemos, … Menciono estes factos tão sómente como pontos que devem ser tomados em consideração por aquelles que tanto clamão contra nós por uma boa estrada, e lembrarei também o tempo pessimo e extraordinario que ha perto de tres semanas tem prevalecido nos malfadados districtos de Santos. …

Deus guarde a V. Ex.

Ilmo. Sr. João Jacintho de Mendonça, dignissimo presidente da província.

(a) J. J. Aubertin, superintendente etc.”

Início da notícia de 17-10-1861

 

 

2ª parte da notícia de 17-10-1861

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3ª parte da notícia de 17-10-1861

 

Final da notícia de 17-10-1861

Vejam que na data de 7 de outubro, data do ofício, a locomotiva ainda não havia chegado, portanto quase dezessete meses depois do início das obras.

Vejamos mais algumas citações a respeito do drama do aterrado do Cubatão.

Logo em seguida, a 24 de outubro, o jornal publicou:

“Informão-nos, que alguns negociantes d’esta praça, receiando de perder as suas mercadorias nos grandes atoleiros do aterrado do Cubatão, já começarão a fazer seguir, ainda que com grandes sacrificios, as cargas por mar até o Cubatão. … Um morador do Cubatão, que hontem sé atreveu a passar por esse caminho, não se animou a tornar a passar; deixou o seu animal meio estropeado n’esta cidade e voltou em canôa. O mesmo contou, que encontrou alguns quarenta animaes atolados nos profundos tremendaes, sem poderem safar-se.

E haverá ainda quem ouze dizer, que não tivemos razão, quando ha cinco mezes chamamos a attenção do fiscal do governo para as obras n’este aterrado? Se não se tivesse consentido que a empreza da estrada de ferro se apoderasse da maior parte do aterrado, antes de ter dado solidez á pequena parte do caminho que ella deixou para o transito actual, não teriamos chegado a este ponto de desgraça, que toda gente sensata prévio.”

Início da notícia de 24-10-1861

 

Final da notícia de 24-10-1861

Imagina-se o verdadeiro ódio que se apoderou dos comerciantes de Santos, que estavam tendo enormes prejuízos em seus negócios. Até armados eles foram à luta.

Vejamos o ofício do Sr. Aubertin ao Presidente da Província, publicado na Revista Commercial de 26-10-1861:

“S. Paulo (Brasilian) Railway Company Limited.

São Paulo, 19 de outubro de 1861.

Ilm. e Exm. Sr.

Apenas acaba de ser assignada a obrigação por parte da nossa companhia, de cumprir todas as condições convencionadas, em relação a reconstrucção do atterrado de Santos, quando recebo o aviso dos Srs. Sharpe, de que um dos principais habitantes de Santos, armado de um par de pistolas e seguido de numeroso concurso de pessoas munidas de facas, em pleno dia, tem tomado posse violenta de uma parte de nossa estrada, e tem destruido uma grande parte da cerca, que a companhia está obrigada a construir.”

Notícia de 26-10-1861

Dias após, em 29-10, surge a primeira crítica direta aos cidadãos ingleses, e não apenas aos responsáveis pela ferrovia:

“Continúa o lastimoso, misero e prejudicioso máo estado da nossa estrada. … Lembre-se S. Ex., que o appello que o Sr. A. (nota do autor: Aubertin) fez para a tal decantada locomotiva, não passa de uma burla, e senão observe. Se a tal esperada locomotiva (qual propheta de Israel) tiver a sorte da primeira? Se ella, como aquella, foi fazer companhia aos peixinhos, o que farão? … E são estes senhores que tanto falão e blazonão da fé dos seus contractos? … mas o orgulho inglez não admitte observações, muito príncipalmente partindo ellas de um povo selvagem como o brazileiro.”

 

Notícia de 29-10-1861

Observa-se nessa manifestação que essa locomotiva, que tanto estavam aguardando, já era a segunda.

Diz o velho ditado que “quem espera sempre alcança”, e eis que, finalmente, veio a notícia tanto esperada – a locomotiva estava batendo às portas do porto santista.

Revista Commercial de 23-01-1862:

 “Entrou hontem de Liverpool a escuna ingleza Emma, 20ª embarcação com materiais para a estrada de ferro d’esta provincia. Consta-nos que entre elles felizmente se acha a ha tanto tempo esperada locomotiva, que por certo contribuirá muito para dar um novo impulso aos trabalhos da estrada.”

Notícia de 23-01-1862

Pouco mais de três meses se passaram e veio o grande momento:

Por ser uma das notícias mais marcantes na história da construção da SPR, peço licença para transcrevê-la na íntegra, além, é claro, da beleza com que foi redigida.

Sendo tão esperada, não poderia ser de outra forma – foi recebida com festas e vivas, por parte de todos. O povo santista se uniu aos diretores, empresários e trabalhadores, a fim de ouvir o primeiro apito em solo paulista.

Revista Commercial de 03-05-1862:

“Sexta-feira, próxima passada, teve lugar em Santos, um ceremonia, não menos importante na sua significação, do que interessante nas circumstancias que a cercarão.

Teve lugar o primeiro ensaio com a primeira locomotiva da nossa estrada de ferro, e ao mesmo tempo foi celebrada a ceremonia de baptisar a criança ferrea. A locomotiva é em todos respeitos da primeira ordem, sendo fabricada pela muito bem conhecida firma de Sharpe Stewart & C. de Manchester.

Pelas duas horas depois do meio dia (empregando a phrase ingleza) Steam was up, e tudo estava prompto para o ensaio, de que forão dados bastantes signaes pelo assoprar do monstro dentro do seu telheiro, como se fosse alguma féra estando para sahir de sua furna. Havia muitos Srs. e senhoras (ainda que, por razões obvias não tinhão sido dados quaesquer convites especiaes) e o resto da multidão compunha-se de rapazes de varias classes, cujo medo do monstro combatia com a sua curiosidade para testemunhar os primeiros passos que ia fazer.

Dado o signal para largar, ouvio-se pelo morro e pelo mar o bem conhecido guincho – todas as crianças começam a vida com guinchos – e o pequeno sahio! Lá foi saudado pelos Srs. Sharpe, P. Sharpe, Aubertin, Fox e outros, e logo foi celebrado o baptismo. E que baptismo foi esse? Em lugar de sorrisos sympaticos, não sem lagrimas de alegria, em lugar de palavras meigas e algumas gottas de agua benta, adiantou-se o padre insensivel – na pessoa do superintendente Sr. Aubertin – e virando duas ou três vezes no ar uma garrafa de Champagne, que tinha na sua mão, lançou ella com violencia, contra o innocente; exclamando em alta voz, nesse momento – Imperador!

Sobreviveu ao assalto e assim foi baptisada a locomotiva; pelo menos, todos ao redor consentião no procedimento, elevando-lhes os chapéos, e dando vivas repetidos!

Parada a locomotiva, logo subirão na frente, e nos lados, o Sr. Aubertin, os engenheiros Bolland, Swindells, Henderson e Faloon, e o Sr. Toohey. Os Srs. Fox, e P. Sharpe estavão com o machinista, mas o Sr. Sharpe pai entrou nos wagons seguido pelo Dr. Cockrane e por todos os que achárão lugar. Foi então posto tudo em movimento: e assobiando, gritando e lançando agua sobre todos a locomotiva com successo perfeito fez um passeio de quase uma milha, e voltou. É para notar que o caminho estava bellissimo; e que porisso não teve lugar o minimo abalo, mesmo neste primeiro ensaio.

Sendo esta uma ceremonia ingleza, necessariamente havia-se de beber depois! Não se zanguem os nossos amigos com esta reflexão: Está bom: fazem muito bem. Todos bons homens gostão de bons vinhos, e os inglezes não são mãos!

Basta dizer que todos os que querião, andavam pelos escriptorios proximos, onde se bebeu muito Champagne, e se fizerão muitos discursos.

O beber Champagne, todavia, é uma cousa bem facil, se for o vinho bom: e o fazer discursos não é muito difficil se não for o vinho bebido em demazia; e tudo a este respeito passou muito bem.

Mas o facto grande e importante do dia é a inauguração fausta da nossa primeira locomotiva, e o completo successo que caracterisou o ensaio. Dimidium facti, qui bene caepit, habet. Seja o seu futuro como foi o seu principio!

Sinceramente nos congratulamos com a companhia, com os engenheiros, e com os contractadores, nem menos, na verdade, felicitamos a Provincia.

A primeira pulsação na nossa vida futura já palpitou na estagnação dos mangues: a primeira locomotiva já vive e move: e quem não exclamará, em sentido duplo – Viva o Imperador!

 

Início da notícia de 03-05-1862

 

2ª parte da notícia de 03-05-1862

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3ª parte da notícia de 03-05-1862
4ª parte da notícia de 03-05-1862

 

 

 

5ª e última parte da notícia de 03-05-1862

Depois dessa belíssima verdadeira oração do redator, é possível, mais uma vez, dizer que povo santista participou, desde o principio, com coração e alma da construção de nossa querida SPR.

Pudemos ver, ainda, e é bom que se saiba, que nossa primeira locomotiva foi batizada com o glorioso nome de Imperador! 

Com essa feliz entrada em operação da Imperador, os trabalhos puderam ganhar uma nova dinâmica, mas é evidente que ela não faria milagres e, que por conseguinte, os problemas iriam continuar.

Vejamos abaixo.

Revista Commercial de 07-08-1862:

“- Pedem-nos que chamemos a attenção do Sr. engenheiro fiscal do Governo para o aterrado do Cubatão, onde no tempo em que ainda não trabalhava a locomotiva, como agora acontece, o leito da estrada de ferro estava separado do caminho frequentado pelas tropas por uma cerca, que hoje, como nos informão já não mais existe. Crêmos que é do rigoroso dever de S. S. olhar para estas e outras cousas, e providenciar, afim de que se evitem desastres.”

Início da notícia de 07-08-1862
Fim da notícia de 07-08-1862

O tempo passou. Foram-se exatos três anos desde o inicio das obras, e eis que, em comemoração a data, um leitor escreveu.

Jornal do dia 16-05-1863:

“Hontem, 15 de maio, fez tres annos, que começárão os trabalhos da estrada de ferro, e o caminho do Cubatão, que a companhia aproveitou, é hoje quase intransitavel. … de sorte que os tropeiros a cada instante são forçados a descarregar e levantar as suas bestas cahidas nos atoleiros, e os viajantes passão os lugares pantanosos com risco da propria vida. …”

Início da notícia de 07-08-1862

Um ano após, em 21-06-1864, lá estava novamente o aterrado no jornal.

“Atterrado do Cubatão.

Informa-nos uma pessoa fidedigna que este atterrado, a cuja conservação a Companhia da Estrada de ferro por contracto está obrigada, hoje se acha de novo em alguns lugares no mais lastimoso estado. Entre outros, consta, que perto da antiga ponte de Sant’Anna, existe uma completa lagoa, tomando de cerca á cerca toda a largura do atterrado que ahi apenas terá 18 palmos, onde ainda no dia 18 atulharão-se os animaes de uma tropa de tal maneira que os fardos que trazia ficarão em miseravel estado. …”

Notícia de 21-06-1864

Vamos lembrar que a essa altura as obras já seguiam adiantadas em toda sua extensão, e os empresários ainda não tinham resolvido o problema do aterrado.

E o problema adentrou o ano de 1865, e vamos encontrar no mês de fevereiro nova reclamação.

É importante lembrar que nesse mês entrou em operação normal o trajeto entre Santos e Cubatão, como veremos na página a seguir – as obras.

Anúncio da Revista Commercial de 14-02-1865:

“200$000 de gratificação.

(nota do autor: duzentos mil réis)

Gratifica-se com a quantia acima a quem descobrir (não sendo alguns dos atuais perpetradores) ou dar informações aos empreiteiros da Estrada de ferro de São Paulo, ou seus agentes, fazendo crêr ao perpetrador ou perpetradores que estão continuamente destruindo a cerca da mesma estrada mais especialmente entre Santos e Cubatão, e que forem encontrados seráõ tratados com todo o rigor da Lei.”

Notícia de 14-02-1865

No final desse ano, a 07-12, era a própria locomotiva que causava estragos devido à falta de cerca.

Vejamos:

“Communicão-nos que as cercas, que dividem a parte do aterrado por onde corre a linha ferrea da outra parte por onde se faz o transito publico, se achão em completo estado de abandono.

Sendo isto prejudicial aos interesses dos pobres tropeiros, que vêem as suas bestas, quando assustadas pela passagem da locomotiva, vararem pelos rombos das referidas cercas e evadirem-se pela linha ferrea fóra, reclamamos de quem compete o indispensavel concerto que demandão as mesmas cercas.”

 

Início da notícia de 07-12-1865

 

Fim da notícia de 07-12-1865

Finalmente, a 09-01-1866, quando já estava aberto o trânsito regular entre Santos e São Paulo, vamos encontrar nova reclamação quanto a esse aterrado.

Será que nessa data teve fim o que parecia uma infindável novela?

Pelo menos foi a última notícia encontrada por este pesquisador.

“Queixão-se os empreiteiros de que as cercas do aterrado do Cubatão não párão em perfeito estado. Os tropeiros, ou por vandalismo ou por desleixo, deixão os animaes de suas tropas arrombarem-n’as e passarem para o lado da linha ferrea. Na semana transacta fizerão-se nas mesmas os ultimos concertos e um dia d’estes uma tropa inteira de bestas carregadas varou por ellas adentro.”

Notícia de 09-01-1866

Foi extenso este capítulo a respeito do aterrado do Cubatão, mas o autor julga ser necessário esse conhecimento pois, como citado no início do mesmo, sempre se considerou sendo o trecho de serra como o único em que os ingleses tiveram enormes dificuldades.

É lógico, precisa-se dizer, que o trecho serrano não interferia no trânsito normal e, dessa forma, não despertavam tanto interesse os problemas ali ocorridos.

Vamos ver o transcorrer de outros trechos das obras.

 

Continue o estudo da construção da ferrovia, pelo próximo assunto:

O Porto – A Chegada dos Materiais

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