Escravidão negra e indígena

Este tema, assim como todos os outros, será abordado de forma sucinta, por estar relacionado com a escravidão negra em território paulista, uma vez que os negros foram os primitivos responsáveis pelo grande desenvolvimento da lavoura cafeeira em nosso território.

Quanto à escravidão indígena, a abordagem é uma homenagem aos verdadeiros donos do solo brasileiro.

Muito se especula sobre esse assunto que mexe com o emocional de milhões de pessoas.

Foi durante o Século XIX que mais controvérsias causou, tanto em nosso país, quanto em outros cantos do mundo.

Temos, no entanto, que levar em consideração que, desde a chegada dos primeiros europeus em nossa terra, a escravidão passou a fazer parte de nossa rotina diária. Primeiro com os índios e, em seguida, com os negros.

Surgem, aqui, duas perguntas:

O que é escravidão?

Quando ela surgiu?

A história nos mostra que há milhares de anos ela já se fazia presente.

Eram diversos os motivos! Às vezes era a forma encontrada para pagamento de dívidas; em outras era um dote matrimonial; em outras, a razão era a derrota em guerras diversas; em outras, era para reparar algum mal ao ofendido.

E muitas outras razões devem ter surgido!

Se as razões foram diversas, também foram diversos os tratamentos dados aos escravos. Em diferentes momentos históricos podemos ver que nem sempre a escravidão era sinônimo de sofrimento. Chegava a ser espontânea, como em casos de dotes matrimoniais – o noivo se oferecia ao proprietário, visando seu casamento com a filha deste último.

Mesmo em casos de aprisionamento, por causa de guerras, ou simplesmente captura de escravos, chegava a haver certo conformismo com a escravidão, pois se em um dia determinada tribo aprisionasse indivíduos de outra, em outros dias a situação poderia se inverter. Era como se fosse um jogo – hoje você ganha, mas amanhã será minha vez!

Havia, também, a escravidão temporária. Há relatos de que os egípcios a usaram quando necessitavam de grande contingente de mão-de-obra. Nessas ocasiões saiam à caça de escravos em povos da redondeza; retornavam com o número desejado e, após o término da tarefa exigida, os que ainda estivessem vivos seriam libertados. Fatos como esse teriam ocorrido durante a construção das grandes pirâmides.

Temos agora, que analisar dois fatores de suma importância:

Em primeiro, nem sempre há registros de maus tratos a esses escravos. Podiam sofrer severa vigilância, e não viver em conforto – o que era lógico – mas maus tratos, surras, ferros em braços, mãos e outras partes do corpo, são fatos desconhecidos – pelo menos em grandes momentos históricos.

Em segundo, era comum uma certa satisfação em ser escravizado. Isto ocorria quando o dominante era uma rica e próspera nação. Em grande número de casos os escravos desfrutavam de uma vida muitas vezes superior do que aquela em que viviam no tempo de liberdade entre seus conterrâneos.

Fatos como este último, encontramos nos relatos bíblicos, quando os judeus foram escravizados pelo babilônios. Se não fosse a atuação firme de seus sábios, procurando de todas as formas manter a unidade do povo, possivelmente a raça judia ali teria desaparecido.

O conforto de que desfrutavam na Babilônia – uma das mais prósperas cidades da antiguidade – era infinitamente superior ao que possuíam em Jerusalém.

Grandes avenidas, jardins suntuosos, palácios majestosos, comércio agitado, grande força militar, rica vida familiar, conforto no se alimentar e vestir – tudo isso mexeu com a cabeça dos cativos hebreus.

Como consequência, milhares passaram a preferir essa vida cativa, aos rigores da terra natal.

Durante o cativeiro muitos começaram a deixar a religião de origem, para aceitarem a do local.

No entanto, a dificuldade dos sábios talvez tenha sido ainda maior quando da libertação promovida pelos persas. Milhares desses libertos não queriam voltar para a “terra prometida”, pois já estavam ambientados em seu novo lar.

Há muito custo os líderes religiosos conseguiram com que muitos voltassem aos poucos;  como era de se esperar os relatos bíblicos não fazem referência a quantos não retornaram.

Em outras situações, a razão para a adaptação dos escravos era o fato de que muitos possuíam aptidões profissionais altamente úteis aos dominantes. Dessa forma passavam a desfrutar de muitos privilégios.

 

A ÁFRICA NEGRA

 

Até meados do Século XV, o que hoje conhecemos como países, obviamente não existiam. Havia, isto sim, uma enorme divisão tribal, de forma que, em territórios como a Angola moderna, tínhamos dezenas de tribos. Muitas eram aparentadas, mas outras não.

Os territórios eram, muitas vezes, diminutos; sempre à beira de rios, ou na costa marítima. A convivência podia ser pacífica, ou problemática.

Muitas das tribos mais poderosas, exerciam a escravidão. Na maioria das vezes era para desfrutar dos serviços dos escravos, principalmente na agricultura. Nesses casos, os escravos nunca ficavam aprisionados muito longe de seus lugares natais – e isto lhes dava certo conforto. As línguas faladas eram iguais ou parecidas, e o mesmo se dava em relação à religião, à alimentação e aos costumes em geral.

Havia, no entanto, a escravidão que atingia os cativos de forma mais profunda; esta visava o comércio com povos distantes. Muito desse comércio era feito entre tribos da mesma raça negra, porém, havia os casos em que os mercadores eram os mouros, vindos do deserto.

Neste último caso os prisioneiros eram levados para lugares distantes, causando-lhes uma grande perda cultural e social. Deixavam, dessa forma, até de se reproduzir. Viviam uma vida monótona e difícil, até se extinguirem – sem verem as luzes do futuro.

Mas, eis que chegaram os portugueses!

E aí tudo mudou! Coitado dos negros!

 

OS COMBOIOS DA VERGONHA

 

Nascia para milhões de negros o momento do qual jamais iriam se esquecer, e nunca poderiam imaginar o futuro que os aguardava.

Como sempre acontece, ao serem estabelecidas relações entre povos de origem e costumes completamente distintos, surgem de início emoções diferentes. Enquanto uns indivíduos se encantam com o novo encontro, outros permanecem indiferentes e, outros ainda, tornam-se arredios.

Os portugueses não podiam agir de forma diferente: de início procuraram manter um diálogo amistoso – afinal estavam em desvantagem numérica e em território totalmente estranho. No entanto, em pouco tempo, o arrebatamento e a curiosidade pela terra recém encontrada foi substituído pela cobiça e, visando auferir grandes vantagens desse encontro, passaram a agir de forma sorrateira.

Acontece que do lado dos negros surgiu fato semelhante. Muitos chefes tribais também passaram a enxergar a possibilidade de auferir grandes vantagens à custa desse novo encontro. Estes chefes e os portugueses passaram a querer saber o que o outro tinha a oferecer – sempre visando levar vantagens nessa relação.

E quando a cobiça entra em jogo, não há limites para a degradação moral dos seres humanos.

Assim, ali no continente negro surgiu um dos fatos mais degradantes da história humana: a escravidão de milhões de indivíduos, à custa de enorme sofrimento – físico, moral, cultural, racial e espiritual.

Nessa época, a maioria das nações “civilizadas” da Europa ocidental se digladiava entre si (como sempre o fizeram), visando a liderança do continente. Assim, os passos dos lusitanos em terras africanas foram logo seguidos por franceses, ingleses, holandeses e espanhóis.

E todos passaram a fazer parte desse imundo carrossel humano.

Navios levavam mercadorias para o continente africano e voltavam abarrotados de almas despedaçadas.

Comerciantes e casas reais participaram desse festim!

Por incrível que pareça, nobrezas que se gabavam de seus luxos e gigantescos hábitos burgueses se tornaram aves de rapina. E esta rapinagem atingiu números de fazer estremecer os princípios divinos da humanidade. Só para o continente americano mais de dez milhões de cativos foram levados. No entanto, se as chamadas “colônias americanas” – que nada mais eram que terras invadidas foram inundadas pelo fragilizado braço negro, também nas cortes europeias estes se fizeram presentes – e nobreza, burguesia e povo se deleitaram sobre aqueles que jaziam aos seus pés.

Mas, como era feita essa rapinagem em terras africanas?

Os europeus, logicamente, raríssimas vezes se aventuraram pelo território desconhecido. Florestas, animais ferozes e peçonhentos, doenças tropicais, falta de alimentos, bem como desconhecimento sobre as forças que iriam enfrentar, fizeram com que permanecessem na costa marítima, esperando que a “caça” viesse até eles.

Em alguns casos, corromperam chefes locais, enquanto, em outros, estabeleceram feitorias – às vezes à força, às vezes com aquiescência local.

Em todos os casos, os cativos já ficavam aprisionados à espera dos navios negreiros. Estes, quando iam buscar suas “mercadorias” já sabiam a carga que os aguardava – o trato tinha sido feito de antemão.

Milhares dos cativos morreram durante o transporte para a costa marítima, mas foi justamente nos momentos  em que aguardavam seu embarque, que começou a grande degradação do sistema. Ficavam aprisionados, amontoados em lugares estreitos e sem as mínimas condições humanas de sobrevivência. É impossível saber, mas calcula-se que até 30% dos cativos morriam nesses pardieiros.

Fatos como esses pouco incomodavam quem os tinham aprisionados, pois sempre traziam cativos em número maior do que aquele dos que seriam embarcados.

Quando da chegada dos navios, se seguiam rápidas negociações – em troca de mercadorias (principalmente tecidos, fumo, cachaça, armas e pólvora), os negros seguiam para o calabouço.

Calabouço, ou masmorras???

Tanto faz! Para os pobres coitados, esses eram os termos apropriados dos porões dos navios que iriam partir.

Nestes momentos, famílias já se encontravam despedaçadas. Uma vez que o interesse por indivíduos (ou mercadorias) do sexo masculino era muito maior, várias companheiras e filhos já haviam ficado para trás, lamentando a partida daqueles que jamais retornariam.

Com a partida dos navios, o mundo civilizado europeu mostrava suas garras.

 

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Navio negreiro – 1830 – Rugendas – web
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Navio negreiro – sem data – web

Em  porões fétidos e imundos levavam suas presas, sem as mínimas condições de higiene. Vômitos, dejetos e urina ali se misturavam, e sobre isso a “mercadoria” ali se deitava. Tudo, em um ambiente sem janelas, onde reinava um calor insuportável.

Cerca de 30 a 40% dos que ali eram jogados, jaziam durante o percurso e seus corpos simplesmente eram despejados ao mar.

Durante a viagem chegava a ser permitida a permanência nos conveses, mas nos primeiros momentos da mesma, todos tinham que ficar nos porões, para que não sentissem o afastamento do solo pátrio.

Antes que essa medida fosse tomada, muitos se lançavam ao mar, mesmo sem saber nadar, na esperança de retornarem à terra.

Enfraquecidos pela má alimentação, e sofrendo de inúmeras enfermidades chegavam ao seu destino – as promissoras terras ocupadas e invadidas pelos civilizados europeus.

 

Vamos, por um instante, deixar o texto correr nas palavras de John Thornton, em seu livro “A África e os africanos na formação do mundo atlântico” – Editora Campus.

– “Enquanto ainda na costa da África, os escravos eram acorrentados em longas cadeias, em grupos de seis, e de dois em dois tinham grilhões entre as pernas, para impedi-los de fugir, ou de se jogarem no mar. Nos navios … não viam o Sol nem a Lua.”

– “A viagem era extremamente desagradável, e para muitos representou uma morte lenta e dolorosa, matando um terço deles.”

– “Nos porões o ar era tão rarefeito e a circulação tão difícil que os cirurgiões a bordo não podiam trabalhar lá porque as velas apagavam e o calor os impedia de trabalhar no local.”

– “Os comerciantes tinham interesse em alojar o maior número possível de escravos nos navios.”

– “Embora as condições físicas pudessem ser frustrantes e penosas para os escravos, amontoados em bancos e com a cabeça inclinada, o maior perigo da viagem consistia na redução de suprimentos de comida e água em razão do embarque de uma carga extra.”

– “Os escravos eram alimentados uma vez a cada 24 horas, com uma refeição composta de não mais do que uma tigela de milho ou farinha de milho ou mingau cru de milho, e as rações de água eram simplesmente uma pequena jarra.”

– “ Os mercadores que controlavam o tráfico negreiro entre Luanda e o Brasil davam aos escravos só um pouco de azeite e um pedacinho de milho cozido.”

– “Muitos comerciantes passaram a alimentar melhor os escravos, para impedir as mortes excessivas e, assim, aumentar seus lucros.”

– “A possibilidade de desidratação pela pouca quantidade de água era grande, porque os africanos viajando pela primeira vez em alto-mar enjoavam e vomitavam com frequência, criando um ambiente que logo se tornava nauseabundo. Ainda mais importante era a diarréia.”

– “As viagens eram fisicamente muito desgastantes, e os escravos que chegavam a Cartagena (Colômbia) estavam reduzidos a esqueletos.”

– “Esse complexo processo de transferir pessoas da África para as Américas era repleto de horrores e poderia durar meses, durante os quais muitos escravos eram submetidos à máxima degradação humana, em seu sofrimento.”

– “Em 1655, o odor fétido que inundou Nova Amsterdã (Guiana) avisou a seus moradores que um navio de escravos chegara.”

– “Os historiadores assinalaram, algumas vezes, o tráfico negreiro transatlântico como o primeiro e fundamental passo para a descaracterização cultural dos africanos. … eles nunca se recuperaram do choque psicológico da viagem, que os tornou dóceis e passivos.”

Não podemos nos esquecer, ainda, de que tudo isso foi assistido de forma quase pacífica pela Igreja Católica. Esta, que vivia em verdadeiro concubinato com muitas realezas europeias calou-se e, até agradeceu a penetração branca em territórios africanos:

Era a grande oportunidade de converter almas para o sagrado Reino de Deus!

Se assim era, pergunta-se: Que Deus era esse?

Não podemos, no entanto, deixar de mencionar que partiu de terras protestantes britânicas o primeiro brado de alerta para a grande violência que se perpetrava. Vagarosamente foi surgindo o “tráfico e a escravidão humanitária.”

A muito custo, e depois de auferirem lucros gigantescos com o tráfico de “mercadorias negras” as pessoas começaram a dizer:

Não é bem assim que se faz!!! Coitados!!!

 

AS ESCRAVIDÕES NO BRASIL

 

ESCRAVIDÃO INDÍGENA

Antes de falarmos propriamente dos negros, temos que nos reportar a uma escravidão que passou a vigorar logo após a chegada dos portugueses à nossa terra – a escravidão indígena.

Como aconteceu em território africano, houve de início um deslumbramento de ambas as partes, deixando, até, um certo estado de êxtase em alguns.

É sabido, pela carta de Caminha, que alguns índios dançaram à beira-mar junto aos portugueses e, também é sabido, que alguns marinheiros fugiram para terra antes que a frota de Cabral partisse para as Índias.

No entanto, esse deslumbramento pouco durou. Poderia ter durado até menos, não fosse a decisão do Rei D. João III de dar início à colonização (ou invasão) somente a partir de 1530.

Até essa data o que ocorria era apenas o escambo, onde navios portugueses, franceses e de outras nações, aportavam em nossa costa trazendo “presentes” para os índios, e conseguindo dos mesmos o trabalho de cortarem o pau-brasil e o embarcarem nas naus.

No entanto, com a chegada da esquadra de Martim Afonso de Souza em 1531, tudo mudou. Ao ser fundada a primeira vila – São Vicente – em janeiro do ano seguinte, foi dado o sinal de partida para o maior genocídio de nossa história, acompanhado de uma bárbara escravidão daqueles que não foram assassinados.

O regime de escravidão não foi apenas um suplício físico para os indígenas, ele também foi um suplício espiritual.

Além das diversas atividades a que foram submetidos – como ocorre em qualquer regime escravocrata – os indígenas, por sua natureza de liberdade e extrema ligação com o meio ambiente, sofreram desde muito cedo pelo afastamento total de seu meio, de seus companheiros e, mais ainda, de sua cultura e religiosidade. Eram submetidos a uma catequese da qual nada entendiam, além de serem obrigados a um batismo totalmente sem sentido, bem como a adotar nomes de origem europeia.

Obrigados a trabalhos forçados, tanto nas fazendas quanto nos meios urbanos, desestruturam-se completamente. Vieram as doenças, a fraqueza física, a saudade e a desesperança. Viveram perdidos em seu novo meio, tornando-se alvo fácil para o vício da bebida.

O alcoolismo generalizou-se em sua raça e, assim, a degradação como seres humanos levou-os à morte prematura.

Nada disso incomodava os colonos, pois novas presas poderiam substituir aquelas que se fossem.

Como se isso não bastasse, foram as índias instrumento de desejos sexuais de homens sedentos. Quando não as prostituiam, as levavam para seus lares, onde o destino estava selado – seriam escravas domésticas, escravas sexuais e escravas de gravidezes sem fim.

Em poucos anos estavam combalidas, vendo seus senhores à caça das mais novas.

E lá das terras distantes da Corte ouvia-se o rei:

“Isso, continuem. Engravidem todas, pois precisamos de mais braços para a conquista da terra!”

Os anos foram se passando e diante desse quadro de degeneração surgiram “almas salvadoras” – os jesuítas.

O que fizeram estes?

Em nome de Deus resolveram que o melhor caminho seria retirar os indígenas do convívio com os colonos.

E surgiram as reduções!

Foram os indígenas agrupados em locais isolados, sob a guarda dos “homens divinos”. Ali conviviam em relativa paz, no entanto tudo não passava de uma nova forma de escravidão.

Trabalhavam na lavoura, na pecuária, faziam trabalhos gerais, tais como construir igrejas e moradias – e ouviam os evangelhos e iam às missas.

Novamente, para deleite dos seus senhores, foram batizados, receberam nomes cristãos e até comungavam.

O ridículo era completo!

Só faltou serem obrigados a construir suas próprias guilhotinas e caixões de sepulcro.

Destituídos de sua espiritualidade e de seus seres divinos, acabaram por ser meros robôs, seguindo como autômatos “as ordens” de um Deus, do qual não tinham a mínima condição de entender sua teologia.

Em toda a costa brasileira viu-se o horror dessa conduta, mas esta adquiriu ares de crime contra a humanidade em terras paulistas.

Bandeirantes!!! Ó nome sagrado!!!

Sagrado para quem?

É evidente que era sagrado para quem se beneficiava de seus atos.

Índios não escrevem história, mas os “civilizados” sim.

E os portugueses a escreveram. E nos ensinaram. E nós aprendemos. E nos vangloriamos. E aplaudimos. E os homenageamos.

Raposo Tavares e seus companheiros são tidos como os construtores da pátria, por terem alargado nossas fronteiras muito além dos limites impostos pelo Tratado de Tordesilhas.

E isto é cantado em versos até os dias de hoje!

Temos que ver, no entanto, que em primeiro lugar eles não expandiram nossas fronteiras – eles invadiram o território espanhol.

Mas isto é problema dos espanhóis!

Os bandeirantes realmente foram homens de coragem; destemidos, enfrentaram todas as adversidades possíveis – enfrentaram até índios que lutavam por seu solo, no entanto, nada dessa valentia os eximem dos crimes cometidos.

É fácil construir uma pátria invadindo propriedades alheias, matando e escravizando os donos da terra.

É fácil construir uma pátria onde suas fundações são solidificadas com o sangue alheio.

É fácil construir uma pátria destituída de princípios morais e espirituais.

Quanto a nós, brasileiros do presente, o que teríamos que sentir seria um profundo remorso pelo que fizeram esses nossos antepassados, no entanto, ao contrário, continuamos com a escravidão indígena.

Que vergonha!!!

Nos dias de hoje, em todos os cantos, o que restou das terras indígenas é sumariamente invadido.

Governos, fazendeiros, aventureiros, criminosos e outros – todos se comportam como hienas diante de uma presa fácil de ser abatida.

Os indígenas não têm imprensa, não têm redes sociais, não têm judiciário, não têm deputados e senadores – e não têm governantes. São dilacerados pela “civilização” branca.

E aqui, temos que finalmente fazer alusão a fato mais grave ainda.

Toda essa barbárie, além de ter sido cometida em nome de uma Coroa, o foi também, em nome de um homem e sua cruz.

Em todas as suas ações os “piedosos” homens brancos fizeram questão de ostentar o estandarte do “filho de Deus” e, até aos dias de hoje, esses piedosos homens repetem o cântico que “com seus atos são aguardados de braços abertos por Jesus Cristo.”

No entanto, Jesus não os aguardará. Depois de provocarem tanto sofrimento e destruição com sua selvageria, movida pela cobiça, quem irá recebê-los estará muito distante da morada do Senhor.

A morada de Deus não são templos erguidos na luxuria, inveja, ambição, cruzes e estandartes erguidos.

Muito menos, em mentes que disseminam ódio e destruição.

A morada de Deus é o coração dos inocentes!

E neste momento, ele se encontra muito ocupado – está agasalhando as almas daqueles “pagãos” que padeceram e morreram sob o jugo da decantada “civilização europeia.”

 

Se há Deus, se há justiça divina, um dia pagaremos por tudo isso!

 

ESCRAVIDÃO NEGRA

ANTECEDENTES

 

Logo após a chegada de Martim Afonso foram instituídas no Brasil as capitanias hereditárias. Em sua quase totalidade foram um grande fracasso dos portugueses nas terras conquistadas.

O braço índio, além de fraco por natureza, era insuficiente para o trabalho necessário. Fazia-se urgente procurar novas forças para a grande tarefa.

De início, D. João III procurou atender suas necessidades enviando para cá a “escória” de Portugal – mendigos, bandidos, assassinos e todos os tipos de homens socialmente desclassificados.

Como era de se esperar, esses “dejetos humanos” só serviram para disseminar desgraça, doenças, desonra e imoralidade:

Esse foi o início da formação do povo brasileiro.

Tentando de forma desesperada melhorar a situação, pois necessitava que se efetivasse a ocupação lusitana, antes que outra nação europeia o fizesse, o monarca português instituiu o Governo Geral do Brasil, que foi iniciado por Tomé de Souza.

Se essa atitude serviu para dar mais unicidade à conquista, a mesma ainda seria pouca, pois de nada adiantaria um governo central, por melhor que fosse, se não tivesse meios para disseminar a cultura da cana-de-açúcar (a riqueza agrícola da época) e a busca pela riqueza tão desejada – o ouro.

Estimulou-se, dessa forma, a vinda de colonos, com a distribuição de terras inexploradas – as sesmarias. Foi a primeira vez que, em vez de brutamontes, vieram famílias constituídas. Além estes, também vieram homens desejosos de constituí-las – afinal, as índias estavam à disposição.

Nada disso, no entanto, seria suficiente, em vista do baixo contingente populacional de Portugal.

Teria que haver uma solução!

 

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Desembarque de escravos – vistoria médica – Rugendas – sem data – web

E a realeza portuguesa foi buscá-la no braço negro, que há décadas já era explorado em solo europeu.

Em aqui chegando, foram diversas as portas pelas quais entraram os negros.

 

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Moenda de cana-de-açúcar – 1835 – Debret – web

Uma vez que a região nordeste foi a escolhida para a instalação dos engenhos açucareiros, foi por lá que mais entraram.

Posteriormente, com a transferência da sede da colônia para o Rio de Janeiro, esta também foi transformada em porto de ancoragem dos “veleiros do inferno.”

 

 

 

 

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Aguadeiro – sem data – web
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Vendedor de cestos – sem data – Debret –  web

Juntamente com essa ocupação territorial surgiram vilas e cidades, e os negros foram utilizados em todos esses ambientes.

Isto seria determinante na formação cultural e social daqueles que chegavam. É preciso muito cuidado quando se aborda essa questão, pois foram inúmeras as situações em que os negros foram integrados ou explorados pela sociedade de então.

Em primeiro lugar, frise-se que quanto à jornada de trabalho, essa sempre foi exercida de forma exaustiva, em qualquer ambiente. Nunca se levou em conta o esgotamento físico, uma vez que “mercadorias” foram feitas para serem usadas, e quando se tornam inúteis são simplesmente descartadas e substituídas.

Eram os negros propriedades de seus senhores; dessa forma, estes tinham plena autonomia sobre o tratamento dado aos mesmos.A exploração foi, assim, exercida de formas diferentes, mas em todas elas, visava-se auferir as maiores vantagens e lucros sobre o capital investido – afinal, eram os escravos o maior bem patrimonial dos proprietários.

 

ESCRAVIDÃO NEGRA

O AMBIENTE URBANO

Nesse ambiente urbano, além dos rigores de horário, muitos escravos foram utilizados na geração de rendas à custa de trabalhos externos, ou sendo locados a terceiros.

 

Sabe-se, por exemplo, do trabalho das quitandeiras, que passavam horas a fio em sua jornada, tendo que no final do dia dividir seus ganhos com seus proprietários.

Até nossos dias, elas fazem parte do folclore na capital baiana.

Se a jornada de trabalho era difícil, pelo menos, muitas conseguiram recursos para comprar a própria alforria.

 

Quitandeiras – cidade de Salvador – 1884 – Marc Ferrez – acervo Inst. Moreira Salles

Semelhante situação ocorria com os homens que eram artífices.

Fossem quais fossem suas habilidades, seus ganhos também proporcionavam lucros financeiros aos proprietários.

Em  tais situações os escravos não sofriam os horrores pelos quais outros padeciam.

Foi a palmatória, talvez, o suplício mais empregado.

 

Artífices e palmatória – sem data – Debret – web

O mesmo se dava com os escravos utilizados em trabalhos domésticos. Uma vez que em cada moradia os escravos eram em pequeno número, tinham uma relação mais íntima com seus proprietários. Eram os jardineiros, caseiros, rendeiras, merendeiras e amas.

Esse tratamento, relativamente ameno, também ficava evidenciado nas vestimentas. Não podiam ser maltrapilhos aqueles que serviam no transporte de bagagens durante viagens internas ou ao continente europeu.

 

Escrava doméstica – João Goston – acervo Inst. Moreira Salles

Havia também os carregadores de seus senhores em liteiras e outros meios de transporte, enfim, em uma infinidade de atividades.

Passeio de um proprietário – sem data – web

Todos esses escravos entraram para o mundo literário, musical, religioso e artístico do período colonial.

Debret, Rugendas e outros, são grandes exemplos que entraram para a história.

Mas vamos perguntar: Qual a visão dos mesmos sobre esses mundos encantados que quiseram retratar?

Certamente, não foi a visão daqueles que um dia foram expropriados de seu solo pátrio!

Foi a visão deles próprios, brancos e burgueses, que refletiu as condições vividas durante a escravidão.

Afinal, nunca se deu cultura aos negros para que pudessem escrever sua própria visão de vida e, sobre seus sofrimentos.  Foram mantidos ignorantes, pois “mercadorias” não se transformam em bens culturais.

Sabemos, também, que a ignorância das grandes massas populacionais é a arma preferida para a classe dominante manter o seu poder.

Enfim, os negros, além dos horrores por que passaram, se transformaram em diversão e atrativo para senhores, moradores e visitantes. Seus cânticos, suas danças, suas rezas e crenças passaram a fazer parte do cotidiano urbano brasileiro.

E ouvia-se:

Olhem que lindos!!!

Eles são uma gracinha!!!

Não podemos deixar de mencionar, que em seu novo meio de vida, as escravas também serviram para atender ao apelo sexual de seus senhores. Uma vez que não tinham alternativa a essa situação, muitas se entregavam objetivando uma melhora em suas vidas.

Para muitas, a gravidez através de um homem branco era uma alternativa para que seus filhos tivessem uma vida mais promissora. No entanto, nunca se perguntou às mesmas, o que sentiam enquanto serviam de joguetes sexuais, nas satisfações de homens que pouco usufruíam de suas esposas, pois estas apenas cumpriam o papel social de serem engravidadas.

 

ESCRAVIDÃO NEGRA

O AMBIENTE RURAL

No ambiente rural tudo foi diferente!

Uma vez que senhores-de-engenho e fazendeiros se encontravam plenamente em seus domínios, com poderes absolutos sobre suas “mercadorias”, puderam ir muito mais além no trato dos escravos. Esse trato não se fez sentir apenas em desumanas horas de sobrecarga de trabalho. Também o foi, e sobretudo, em vestimentas, alimentação e maus tratos.

Era ínfima a vestimenta dos negros, sendo na maioria das vezes, a mesma para diferentes estações climáticas. Muitos proprietários adotaram a “norma civilizada” de fornecer um novo jogo de roupas a cada ano que se passava.

Quanto à alimentação, fosse qual fosse, servia apenas para manter em pé os corpos daqueles que teriam que cumprir as exigências dos senhores, durante anos a fio. Isto depois de uma jornada de quatorze a dezesseis horas diárias de árduo trabalho, com relativa folga aos domingos.

 

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Habitação de escravos – sem data – Rugendas – web

Nesses dias, muitos dos negros podiam cuidar de suas casas, e de pequenas culturas e criações que possuíam em mínimo espaço ao redor de suas rústicas moradias.

Com o passar do tempo, em algumas propriedades, houve uma “humanização” no trato dos escravos, para que estes pudessem aumentar sua produtividade, dando maiores lucros aos senhores.

Repetiu-se aqui a mesma conduta que havia acontecido durante a travessia atlântica.

Era como se os senhores dissessem aos seus escravos:

– “Eu cuido de vocês, não para terem uma vida melhor ou serem mais felizes, mas sim, para que eu possa aumentar meus lucros e, dessa forma, comprar outra leva de “vadios e indolentes” como vocês.”

Sim! Vadios e indolentes! Era assim que se considerava a raça negra, como se esta fosse obrigada a ter estímulos para ir à luta com mais ardor.

Mesmo nessas propriedades onde a vida dos negros foi amenizada, ela o foi segundo os padrões dos senhores. Duvida-se que tenha havido em todo território brasileiro pelo menos um proprietário que um dia tenha se dirigido aos negros, e feito a pergunta:

– “O que vocês esperam, e como gostariam de viver?”

E mesmo que a tivesse feito e obtido muitas respostas, ele haveria de responder:

– “Sinto muito, mas não será possível atendê-los!”

Já em relação aos maus tratos, podemos afirmar que foi uma grave violação dos direitos humanos, assim como aquela dada aos indígenas.

 

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A covardia – web
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Quem quiser, que escreva algo – sem data – foto web

Na  tentativa de subjugar os escravos foram inventados os mais variáveis meios de dominação. A criatividade humana foi posta à prova, e o ferro foi fartamente utilizado. Desnecessário se faz entrar em detalhes, pois esses meios são do conhecimento de todos.

Neste momento precisamos levar em conta as inúmeras reações dos negros à essa situação.

Sabemos que o aprisionamento dos mesmos em terras africanas se verificou em regiões distintas, onde imperavam culturas diferentes, com diferentes reações emocionais diante dos fatos da vida.

 

 

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Capoeira – sem data – Augusto Earle – web
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Coroação de uma rainha na festa de Reis – 1776 – Carlos Julião – web

Essas diferenças foram trazidas para a nova terra, fazendo com que em alguns casos a reação fosse de conformismo, diante da incapacidade de enfrentamento, tanto diante dos senhores, quanto das forças do governo. Isolados, pouco poderiam fazer.

 

 

 

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Grande líder de uma grande revolta negra – web

Em  outros casos a reação foi o nascimento de verdadeiro ódio por seus proprietários ou capatazes. Estes últimos muitas vezes eram negros ou mulatos, pois o trabalho de algozes não era digno dos homens brancos.

Muitas vezes esses capatazes eram obrigados a aceitar a tarefa, senão seriam eles os violentados, já em outras o faziam visando, para si, uma vida de menos sofrimento, e alguma vantagem no relacionamento com o patrão.

Chegou a tal ponto o suplício dos escravos que, em determinado momento, estes passaram a reagir com igual violência. E esta foi exercida na forma de assassinatos de capatazes, fazendeiros e seus familiares.

 

Muito se comenta sobre estes últimos fatos, alegando-se a má índole da raça negra para a realização dos mesmos. No entanto, nunca foi feita a pergunta se eles eram violentos em suas terras de origem. O fato é que não há um registro histórico sequer, que aponte essa violência como sendo inata, desses que aqui a exerceram.

Qual o motivo, então, dessa violência ter sido perpetrada em nossas terras?

Antes de se responder a essa pergunta vamos olhar um pouco para a província de São Paulo.

 

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Carregamento de café – 1826 – Debret – web
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Terreiro de café e crianças brincando – Rio de Janeiro – 1865 – Georges Leuzinger – acervo Inst. Moreira Salles

No  início do Século XIX o café adentrava em terras paulistas, pela região do Vale do Paraíba. Foi nessa ocasião que a escravidão chegou com força a essa província. Até então, eram poucos os cativos que para cá vinham, em comparação com o grande número dos que chegavam à região Nordeste, e ao Rio de Janeiro.

A cultura canavieira na província paulista se restringia ao chamado quadrilátero da cana, região em torno da cidade de Campinas, delimitada por Jundiaí, Porto Feliz (Itu), Piracicaba e Mogi Mirim. Praticamente todo o restante da província era constituído por matas virgens e várzeas, sem a presença dos homens brancos.

Essa escravidão inicial foi realizada antes da promulgação da Lei Eusébio de Queiróz, no ano de 1850. Essa lei viria a ser de grande importância para o solo paulista.

Qual a razão?

Nessa ocasião, já se encontrava extinto o ciclo do ouro, em terras mineiras; ciclo esse que demandou enorme contingente de escravos. Também, na mesma ocasião, entrava em declínio a cultura canavieira no Nordeste e no Rio de Janeiro, em virtude da forte concorrência do açúcar produzido em outras partes do globo, notadamente na região do Caribe.

Ora, com referida lei, imposta pelos ingleses, o tráfico internacional de escravos ficou restrito a poucos navios, que adentravam nossos portos de forma clandestina. E esse parco fornecimento de novos braços negros, não foi suficiente para a grande demanda da cultura cafeeira.

Uma vez que os senhores de engenhos de açúcar, nas mencionadas regiões produtoras, estavam ansiosos para diminuírem seus prejuízos, pois tinham que sustentar os escravos sem função em suas propriedades, rapidamente passaram a vendê-los, surgindo, assim, o tráfico interno dirigido fortemente para as fazendas paulistas.

É evidente que, em uma situação dessa, os proprietários quisessem se desfazer da mão-de-obra menos produtiva que possuíam, seja por velhice, seja por doenças, ou seja por problemas de comportamento pessoal.

Por essa razão a cafeicultura paulista foi provida, dentre outros, por escravos altamente “problemáticos” para seus senhores. Aqui chegaram inúmeros que já se encontravam revoltados pelo sofrimento em outras terras.

É incontável o número deles que traziam fortes marcas em seus corpos, provocadas por ferros e outros suplícios. Esses fatos foram fortemente narrados pela imprensa da época.

Além de trazerem essas marcas físicas, muitos também trouxeram marcas da alma, pois foram separados de seus familiares e companheiros, assim como havia acontecido durante o tráfico africano.

Nessa situação, e chegando ao solo paulista, após extenuante caminhada, não é difícil imaginar que se revoltassem ao menor novo suplício sofrido, ou fugissem assim que tivessem oportunidade para tal.

Fugas e condutas violentas, trouxeram prejuízo e medo aos “coronéis paulistas”.

Por volta do ano de 1870, com o início da construção da rede ferroviária paulista, que havia se iniciado com a São Paulo Railway SPR, toda a região que antes era inculta passou a ser ocupada pela elite cafeeira. Como consequência, aquela conduta de fugas e reações violentas por parte dos escravos, sofreu grande incremento.

Fatos como esses também assumiram grande repercussão na imprensa de então, e foram um dos motivos que levou os cafeicultores locais a optarem pela vinda de colonos europeus.

Estes vieram em grande número, não só para São Paulo, como para inúmeras outras regiões, abrindo caminho para a “libertação” dos escravos.

Nos dias de hoje, são inúmeras as antigas fazendas de café que abrem suas portas para os turistas, cantando em versos, que são fazendas centenárias, e se orgulhando de suas antigas senzalas.

De modo geral, isto traz prazer aos visitantes – e todos ficam felizes! Uns ganham dinheiro, outros se divertem: pouco se importam em saber o quanto padeceram os que para ali foram levados; os que ali foram explorados; os que ali foram surrados e os que ali morreram.

Ora, para que lembrar essas coisas?

Piscinas, lagos, pedalinhos, playgrounds e a legítima comida caseira fazem a festa de todos, e como são lindas as fotos em jornais, revistas e meios eletrônicos!

É a vitória do esquecimento fácil!

Em muitas terras paulistas e, também, em fluminenses e mineiras, não se cultiva mais o café de outrora:

São cultivados o cinismo e a hipocrisia!

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Ao promulgar a Lei Áurea a monarquia nada mais fez do que lavar as mãos diante das grandes pressões internacional e interna. Foi o complemento do que já havia ocorrido após o término da Guerra do Paraguai.

Por ocasião da invasão paraguaia, o Brasil mal dispunha de forças militares para enfrentar a situação. O governo teve que recorrer ao recrutamento, ao voluntariado – e aos escravos. A estes foi oferecida a liberdade, caso voltassem com vida após servirem a pátria. Este oferecimento atraiu enorme contingente de negros, que fugiam de suas propriedades, almejando a libertação futura.

Juntamente com essa leva, outra surgiu. Muitos senhores ofereciam “graciosamente” alguns escravos para irem à luta. Visavam com isso livrar seus próprios filhos dos horrores da guerra.

Ambos os fatos chegaram a transformar o exército nacional em exército de escravos negros. E estes foram um dos grandes responsáveis por nossa vitória final.

A imprensa paraguaia chegou a ridicularizar nossas forças: foi publicada, em jornais da época, a charge mostrando um negro empunhando sua carabina (que era uma banana), e os dizeres:

 “Exército de los macaquitos!”

Essa propaganda de guerra poderia ter se transformado em uma exaltação do homem negro em nossa terra. Mas ….

– “Imaginem!

Nossas vitórias foram conquistadas por Deodoro, Osório, Tamandaré – e outros homens brancos!

Se podemos sempre exaltar nossos valorosos comandantes, por que não exaltamos aqueles que almejavam sua liberdade?

Ora, para que se lembrar dos negros?

Os heróis são sempre os brancos!

E o que aconteceu àqueles “pobres diabos negros” que um dia voltaram com o orgulho da vitória?

Simplesmente foram para a Corte, a fim de desfilarem perante o monarca.

Foram tão aplaudidos!!!

E depois, o que os esperava? Simplesmente o esquecimento total. Foram abandonados à própria sorte.

Livres, porém cativos. Cativos da pobreza, da ignorância (negros não eram levados à escola), do desemprego, de doenças e males físicos trazidos dos campos paraguaios.

Foram o princípio das favelas cariocas, junto com voluntários e recrutas brancos, também abandonados pelo poder imperial.

Poucos anos após o término da guerra sobreveio a “lei da libertação”, trazendo aos negros o mesmo destino precedente. Cansados de longas jornadas de trabalho, más condições de vida e, principalmente de maus tratos, não hesitaram em deixar o “calabouço agrário” e se dirigiram para as cidades.

Qual seria seu futuro? Não tinham o menor preparo para essa nova vida, além de serem rejeitados pelos moradores locais.

Novos favelados e novas bocas em busca de alimento!

À falta de perspectiva melhor de vida, sobreveio o furto, o roubo, a bebida e a violência.

“Só podia ser coisa de negro, mesmo!”

Sim, são palavras fáceis de serem proferidas! O difícil é olhar para dentro de si e encontrar ali a origem da desgraça alheia.

Por mais que passem os anos, a situação continua a mesma.

E o cinismo e a hipocrisia também!

Pois é, nossa sociedade provinda de civilizados europeus, que por aqui chegaram, é uma sociedade cínica e hipócrita.

“Imaginem (outra vez), somos tão compreensíveis com os negros! Até criamos cotas para que eles possam estudar e se tornarem cidadãos de bem!”

Ora! Isto já não é cinismo nem hipocrisia – é uma violência moral!

Os negros não precisam de esmolas para cursos e empregos. Eles precisam apenas de uma coisa – respeito e reconhecimento pelo que passaram, e por tudo que fizeram para o crescimento do país, e para o enriquecimento da raça branca.

Se esta lutou de forma valente para o estabelecimento de uma sociedade moderna, merecendo admiração por seus feitos, todos os seus méritos devem ser divididos com aqueles que sofreram a violência de para cá serem trazidos, explorados e violentados.

O que seria se valentes homens brancos não contassem com a força de cerca de cinco milhões de braços africanos em suas fazendas, em suas minerações, em seus engenhos e em suas cidades?

Até aos imigrantes que trouxeram sua força após o negro, foram dados méritos pelo seu trabalho.

Merecem, sim! Mas …

A grande partida para a grandeza de São Paulo foi dada pelos indígenas da terra, e pelos braços de “indolentes e vagabundos” negros!

Finalmente …

Neste singelo texto fica meu pedido de perdão aos irmãos de jornada neste planeta Terra.

Se indígenas, negros e aborígenes fossem cobrar indenizações por todos os males que sofreram não haveria moeda que os indenizassem.

Se Sua Santidade o Papa quisesse reparar o mal que sua Igreja causou, teria que ficar mil anos de joelhos e pedir perdão a todos que padeceram em nome de uma Cruz.

Observando o desenrolar da civilização humana o Criador deve ter se perguntado qual a razão de seu nome ter dado motivos para tanta violência e exploração do próximo.

Mas Ele já deve ter a resposta:

O civilizado homem branco inventou sua teologia, pela qual a classe dominante pode causar todos os males possíveis, pois basta um pequeno momento de extrema-unção ou arrependimento, para que seja perdoada dos infinitos males que causou.

Também inventou a teologia de que os explorados devem se calar e se conformar com seu sofrimento, pois na vida eterna estarão no paraíso.

“Que sublime consolo!”

Olhando para a história, vemos que a raça branca construiu sua grandeza simplesmente à custa da exploração do alheio.

Será muito difícil a remissão de seus pecados. Terão os antigos colonizadores que se empenhar muito para alcançá-la, mas sempre há a luz da esperança.

Caso enxerguem o tamanho da barbárie que cometeram, e dela se arrependam, e resolvam, finalmente, adotar a conduta de homens civilizados, a humanidade encontrará um novo Norte para dias futuros; porém, se fracassarem, ficará a certeza de que se o Grande Senhor do Universo resolver um dia reconstruir sua obra, pensará infinitas vezes se valerá a pena incluí-los em seus projetos, pois …

 

No reino de Deus não há lugar para barbáries!

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