Estação da Luz

ANTECEDENTES

Atualizada até 21-12-2016

 

Dia 15-05-1860 foi histórico na vida da, então, província de São Paulo.

Nesse dia dava-se início às obras de construção da São Paulo Railway – SPR, na cidade de Santos. Esse momento já vinha, há muito, sendo aguardado, pois São Paulo necessitava urgentemente daquela que seria sua primeira ferrovia.

A produção agrícola de exportação estava sem perspectiva de crescimento por falta de um melhor acesso ao porto de Santos, que era o único em condições de colocar a província em contato direto com os demais mercados, tanto nacionais, quanto internacionais.

 

Início da notícia do começo dos trabalhos de construção da ferrovia – jornal Revista Commercial – 18-05-1860 – hemeroteca da cidade de Santos – pesquisa do autor

Foi, assim, com muito orgulho e eloquentes discursos que, no local da futura estação do Valongo, o presidente da província, acompanhado de grande comitiva, retirava do solo o primeiro torrão, para que pudessem ser assentados os trilhos que iriam construir a riqueza tão esperada.

Os ingleses, responsáveis pelas obras, estavam preparados para a tarefa, mas, ainda assim, iriam enfrentar grandes dificuldades em sua execução. Depararam-se com momentos difíceis mas, com fibra e determinação, foram em frente e as obras avançaram – ora lentamente, ora de forma rápida.

Uma vez que todo o material necessário viria de terras britânicas, era natural que a construção se iniciasse pela baixada santista, e foi assim que, aos trinta de agosto desse mesmo ano, as obras se iniciaram na raiz da serra rumo ao topo serrano, na futura Paranapiacaba.

É incerta a data em que as obras foram iniciadas na atual região do ABC paulista, no entanto, tem-se certeza de que também foram nesse mesmo ano.

 

11-30-construcao-inicio-dos-trabalhos-na-cidade-de-sao-paulo-rev-com
Início dos trabalhos na capital paulista – jornal Revista Commercial – data de 30-11-1860 – hemeroteca da cidade de Santos – pesquisa do autor

Quanto à capital paulista, o início das obras foi a vinte e quatro de novembro, sem que se saiba o local exato em que o mesmo ocorreu. Até o presente não foi encontrado um registro sequer do local aonde foi instalado o acampamento operário. Devido a isso, fica um intervalo de tempo entre a data acima, e a da chegada do primeiro trem à nossa capital.

E quando se deu esta tão esperada chegada?

Foi no dia 21-08-1865, aproximadamente seis meses após a abertura do tráfego público entre Santos e Cubatão, pois esta se deu aos vinte e dois de fevereiro desse ano.

É evidente que o trecho serrano, devido às dificuldades naturais, iria sofrer atraso em sua conclusão, mas o trecho entre o alto da serra e a capital não tinha razões para ser retardado, por ser quase plano e em linha reta.

 

08-22-construcao-abertura-do-trecho-ferroviario-entre-paranapiacaba-e-sao-paulo-com-chegada-na-chacara-do-sr-fagundes-1-rev-com
Trecho inicial da notícia da chegada da primeira locomotiva na capital paulista, vinda do alto da serra – jornal Correio Paulistano – data de 22-08-1865 – Arquivo Público do Estado – pesquisa do autor
08-22-construcao-abertura-do-trecho-ferroviario-entre-paranapiacaba-e-sao-paulo-com-chegada-na-chacara-do-sr-fagundes-2-rev-com
continuação da notícia da chegada da primeira locomotiva na capital – cita-se que o trânsito até a cidade de Santos só seria efetivado com a conclusão dos trabalhos na serra

E esse dia vinte e um de agosto entraria para a história da capital paulista – o povo acorreu ao local da chegada da locomotiva, ávido por ver a grande novidade tão esperada.

E onde a  escandalosa “Maria Fumaça” parou?

Levando-se em conta a notícia que temos em mãos, o ponto de chegada foi onde temos hoje a estação do Brás. Esse local fazia parte da grande chácara do Sr. Felício Antônio Fagundes.

Vamos abrir um parêntese em nosso assunto para falarmos um pouco a respeito dessa chácara.

 

 

sao-paulo-chacara-do-sr-fagundes-web
Chácara do Sr. Fagundes – local da chegada da 1ª locomotiva na capital paulista – pesquisa do autor

A mesma abrangia a região do bairro da Liberdade até onde temos o bairro da Mooca. No primeiro, temos, hoje em dia, a Rua Fagundes, travessa da Av. da Liberdade. Era nesse local que se situava a residência daquele senhor.

Naquela ocasião, a cidade de São Paulo praticamente findava nessa avenida, nas proximidades do atual Largo da Pólvora. Por essa razão, o jornal Correio Paulistano, ao comentar o acontecimento assim se expressou: “A primeira locomotiva chegou hontem mesmo à porta desta cidade …”.

A notícia acima ainda faz referência à gentileza do Sr. Fagundes, oferecendo em sua residência, sucos e lanches a todos os visitantes.

Voltemos, agora, ao nosso assunto principal.

Aquela que seria a principal estação da capital se situava no Jardim da Luz, praticamente encostada na atual Estação da Luz.

Assim como esta, ela também se localizava onde temos hoje a Rua Mauá.

 

1ª estação da capital – aberta ao trânsito até Paranapiacaba após o acidente do dia 06-09 – autor desconhecido – web

Uma vez que sua inauguração estava marcada para o dia seis   de  setembro,  em  homenagem  à proclamação de nossa independência, é evidente   que,  por ocasião  da chegada da locomotiva na chácara do Sr. Fagundes, ela estava praticamente concluída. Faltavam apenas os trilhos entre o Brás e a Luz.

Esse dia 06-09 deveria ser marcado por uma grande festa. E esta realmente estava preparada.

O povo foi convidado! Enfeitou-se o jardim! Barracas populares foram montadas!

O banquete para as autoridades estava pronto! Tudo era alegria!

Mas quis o destino que tudo se perdesse.

 

Notícia do acidente do dia 06 – jornal Revista Commercial – data de 09-09-1865 – hemeroteca de Santos – pesquisa do autor

O trem, conduzido por duas locomotivas, saindo da estação do Brás, com inúmeras autoridades e convidados, descarrilou-se nas proximidades do atual Parque D. Pedro II. Informa-se que o maquinista, talvez entusiasmado pela festa, tenha imprimido velocidade acima do esperado. Com a forte trepidação, um dos suportes dos trilhos se rompeu, fazendo com que a segunda locomotiva tombasse, causando o acidente.

Inúmeras autoridades se feriram, sendo o próprio maquinista a única vítima fatal.

(Nota: comenta-se que na manhã seguinte ao ocorrido, nada havia sido mexido nas mesas do banquete – tudo estava nos seus devidos lugares – esta notícia não foi encontrada pelo autor deste site)

O fato é que, logo após o lamentável acidente, os trilhos foram consertados e os trens passaram a circular regularmente entre o alto da serra e a capital.

11-04-noticias-abertura-do-viaduto-da-grota-funda-para-trransito-de-trens-c-p
Abertura do Viaduto da Grota Funda – jornal Correio Paulistano – data de 04-11-1865 – Arquivo Público do Estado – pesquisa do autor

Foi somente no dia dois de novembro desse ano que foi aberto o trânsito entre Santos e São Paulo, ao ser concluído o Viaduto da Grota Funda na Serra do Mar. Foi ele a maior obra em toda a ferrovia, tendo desmoronado na década de 1970 (quando já estava desativado), por ocasião de forte chuva na região.

 

5-1890-a-segunda-estacao-sao-paulo-ja-havia-bondes
Ampliação da primitiva estação – à esquerda a circulação de bonde pela atual Rua Mauá – 1890 – autor desconhecido – foto web

A partir de então, o crescimento do transporte de passageiros e cargas foi vertiginoso. Por volta de 1880 se fez necessário ampliar a acanhada estação. Dentre outros melhoramentos construiu-se a cobertura da plataforma de embarque, e ampliaram-se as instalações, com a construção de um andar superior.

 

Porém, logo após, os ares republicanos se fizeram presentes, e o novo governo tinha pressa rumo ao futuro. Diante dessa nova situação, os responsáveis pela ferrovia passaram a ser cobrados por uma maior eficiência e modernidade na prestação dos serviços.

No ano de 1895 o Jardim da Luz começou a conhecer sua nova moradora.

 

A ESTAÇÃO DA LUZ

 

O projeto da nova estação foi do engenheiro inglês Charles Henry Driver, e as obras foram de responsabilidade do engenheiro James Fford.

 

7-1898-em-construcao-leito-ainda-nao-rebaixado-trens-circulando-normalmente
Canteiro de obras – trens circulando normalmente – ao fundo à direita, atrás do trem, a antiga estação – 1898 – foto web

Os  paulistanos viram surgir um grande canteiro de obras, com um acentuado rebaixamento do nível do leito ferroviário, para que as novas linhas não interferissem no tráfego da cidade.

No ano de 1900 foi demolida a anterior estação.

O dia 1º de março de 1901 é considerado como sendo o da inauguração da nova estação, no entanto, antes disso a estação já era o novo e badalado “point” dos paulistanos, inclusive com cobrança de ingresso para que os visitantes fossem ver as partidas e chegadas dos trens.

 

Cobrança de ingresso para as pessoas que queriam ver as partidas e chegadas dos trens, mesmo antes da inauguração da estação – web

Desde seu início ela foi de vital importância para a capital paulista, que naquela época possuía cerca de 240 mil habitantes. Era em suas plataformas que a elite paulistana embarcava para o porto de Santos, rumo à capital federal ou Europa. E todos aqueles que a São Paulo vinham, também por ela passavam.

 

 

9-1903-bondes-puxados-por-burros
Face leste, voltada para o Jardim da Luz – vide bondes puxados por burros – 1903 – foto web

Semelhante a outras que haviam sido construídas mundo afora, inclusive a de Sidnei na Austrália, em seu estilo vitoriano ela passou a ocupar uma área de 7.500 metros quadrados do Jardim da Luz. Boa parte de sua estrutura veio da Europa: tijolos, madeira (pinho-de-riga irlandês), telhas, cerâmicas e as estruturas de aço que compõem a gare. E o que mais chamava a atenção era seu belo relógio em quatro faces que, do alto de sua torre, acertava as horas dos apressados paulistanos.

 

13-sem-plataforma-central
Passarelas superiores – pátio sem plataformas centrais – sem data – foto web

Driver deu a ela um traçado arquitetônico engenhoso e bastante peculiar. Ao rebaixar o leito ferroviário foi possível a construção, sobre as plataformas, de três passarelas que permitiam a travessia de pedestres, carruagens, carroças e cavaleiros.

Um fato curioso é que, naquela oportunidade, não havia as plataformas centrais. Estas, no entanto, já aparecem em antigas fotos.

 

 

111-incendio-1946
Incêndio – saguão principal – 1946 – foto web

Com sua imponência, a todos causava admiração, e foi com profundo pesar que, na madrugada de 06 de novembro de 1946, São Paulo viu grande parte de sua estrutura, juntamente com a torre do relógio, ser consumida por violento incêndio. Este ocorreu somente dois dias antes da entrega da ferrovia para o governo federal, pois estava findo o contrato de concessão de 90 anos que havia sido concedida por D. Pedro II.

 

Segundo o jornal “A Folha de São Paulo” do dia 08 do mesmo mês, os prejuízos foram calculados em seis milhões de cruzeiros (valores da época).

Muito se especula sobre as causas do incêndio.

Oficialmente foi dado como casual, porém há quem atribua o mesmo aos próprios ingleses.

Pelo contrato assinado, eles teriam que repassar ao governo uma considerável parte do lucro que haviam obtido. Uma vez que o incêndio se iniciou na seção administrativa e destruiu grande parte da importante documentação contratual e fiscal da ferrovia, ficou difícil apurar os enormes lucros que os capitalistas ingleses auferiram. Dessa forma o repasse ao governo teria ficado muito aquém do que deveria ter sido.

Mas, na ocasião, outra especulação chegou a ser aventada: os judeus seriam os responsáveis.

Os judeus???

Qual a razão?

Seria uma só: vingança pelo fato de os ingleses serem contra o movimento sionista, que pregava a volta do povo judeu para a terra prometida – a Palestina, onde seria estabelecido o Estado de Israel, logo após o término da II Guerra Mundial.

Esta especulação foi, no entanto, prontamente desmentida.

Enquanto nada se prova, entra para o imaginário popular as causas da tragédia.

Mas, fossem quais fossem suas causas, São Paulo não podia parar. Imediatamente foram iniciados os trabalhos de remoção dos escombros, e pouco tempo depois, uma nova estação estava erguida.

 

15-2009
Fachada principal – 2009 – foto do autor

Durante as obras de recuperação, foi construído um novo andar do lado leste, que manteve o mesmo estilo da fachada. Essa ampliação foi necessária, pois o número de passageiros tinha aumentado 20 vezes.

Anos mais tarde milhões de reais foram gastos em nova modernização.

A Estação da Luz estava cambaleante. Mas, em 2004, na data de 450 anos de fundação de São Paulo, foi reinaugurada.

O tempo passou, e nossa estação não podia parar no mesmo. De reforma em reforma foi cumprindo sua missão.

Outrora, milhares de trabalhadores, vindos pelos trilhos da SPR (posteriormente Estrada de Ferro Santos a Jundiaí), em busca de sua terra prometida, também conheceram as plataformas da esperança.

 

87
Plataforma central e trem metropolitano – 2011 – foto do autor

Hoje não temos mais os charmosos trens de longo percurso que impulsionaram e deram vida a esta terra, antes tão acanhada, mas por ela passam os trens metropolitanos que transportam milhões de pessoas, que lutam pela pujança da terra.

No entanto, o sistema metropolitano de São Paulo, através das linhas azul e amarela, é inconcebível sem a ligação direta com seus trens.

 

Museu da Língua Portuguesa – totalmente perdido no incêndio – 2011 – foto do autor

Hoje, mais de um século se passou desde sua inauguração, e São Paulo não vive somente de trens – passamos a encontrar em seu interior o Museu da Língua Portuguesa. Antes de uma nova tragédia, ele atraiu, desde 2006, milhões de pessoas interessadas em enriquecer sua cultura.

Foi uma realização imperdível!

Crianças se encantaram com o aprendizado, bem como com a moderna apresentação áudio – visual.

Jovens e adultos também não deixaram de admirá-lo.

120-incendio-12-2015-o-estado-de-sp
2ª tragédia – fachada principal – 12-2015 – foto O Estado de São Paulo
119-incendio-22-12-2015-o-estado-de-sp
2ª tragédia – 21-12-2015 – foto O Estado de São Paulo

Esta nova tragédia, ocorrida em 21-12-2015, causou comoção geral.

Um novo incêndio destruiu grande parte do edifício, justamente no local onde se situava aquele que era o único museu no mundo dedicado a um vernáculo.

 

Com toda a presteza possível, as autoridades deram início aos estudos visando a restauração, tanto do edifício, quanto do museu. Finalmente, as obras foram iniciadas em 21-12-2016, com previsão de entrega de um novo e renovado museu, já no ano de 2019.

Dessa forma, aguardaremos a reinauguração desses dois ícones da cidade de São Paulo, para orgulho de seus cidadãos.

 

96-expresso-turistico
Expresso turístico – Luz-Mogi das Cruzes – 2010 – foto do autor
63
Expresso Turístico Luz-Jundiaí, apesar da anotação “Paranapiacaba” – 2010 – foto do autor

Surgiu, ainda, neste início de século XXI, o expresso turístico, que nos fins de semana segue alternadamente em direção a Jundiaí, Mogi das Cruzes e Paranapiacaba.

É uma festa! Adultos relembram tempos passados, e para os pequenos a novidade é imperdível.

 

Assim, os paulistanos, ao longo do tempo, assistem à maior transformação arquitetônica de sua cidade.

Incansável, segue ela o rumo de nossa terra.

 

DA SPR AOS DIAS DE HOJE ELA É A NOSSA ESTAÇÃO DA LUZ

 

 

47-simbolo-de-uma-era
Gare – símbolo da SPR – 2008 – foto do autor
40
               Gare – 2008 – foto do autor
73
Saguão principal – 2010 – perdido no incêndio – foto do autor

 

75
Saguão principal – 2010 – perdido no incêndio – foto do autor
74
Saguão principal – 2010 – perdido no incêndio – foto do autor

 

 

Deixe uma resposta