Imigração em São Paulo

 

Desde os primórdios de nossa história os homens migraram sem cessar.

Foram inúmeros os motivos que os levaram a novas paragens.

Às vezes, fatores climáticos temporários provocavam uma migração momentânea para lugares não muito distantes, em busca de melhores condições de vida. Cessada a adversidade do clima, os homens retornavam aos seus primitivos lugares.

Em outras oportunidades eram confrontos com povos vizinhos, onde os mais fracos não viam outra solução senão se retirarem, a fim de evitar grandes e irreversíveis perdas a todo o grupo.

Em outros momentos, o problema era a superpopulação, o que provocava uma dificuldade de sobrevivência, mesmo em regiões favoráveis ao estabelecimento de uma cultura humana.

Havia, ainda, a migração provocada por conflitos internos em um clã.

Também havia o fator curiosidade, que levava os homens a outras paragens, no intuito de apenas conhecê-las, mas que acabava se tornando uma viagem sem regresso.

Uma vez que a ambição se faz presente em grande parcela da humanidade, ela também foi motivo para migração de milhões de pessoas.

Já em relação às sociedades modernas, nos quatro cantos do planeta surgiram migrações provocadas pela falta de oportunidades em se conseguir empregos que garantissem boas condições de vida. Sem esses empregos não havia como conseguir alimentos e, daí, provinha o pior dos motivos para uma migração forçada – a fome.

A província de São Paulo, até meados do século XIX, não passava de uma terra quase esquecida no território nacional. As vedetes eram, sem dúvida, a região nordestina –  com suas culturas da cana-de-açúcar; a região das gerais – com suas riquezas minerais; e a região fluminense que, além da cana-de-açúcar, era a sede da Coroa.

Enquanto isso, os paulistas pouco usufruíam da riqueza de seu solo, uma vez que a grande muralha da Serra do Mar era um entrave para uma maior comunicação com outras regiões.

Esse isolamento paulista começou, de forma acanhada, a ser quebrado quando a cultura cafeeira penetrou pelo vale do Rio Paraíba do Sul. No entanto, tudo o que se produzia era direcionado ao porto do Rio de Janeiro, trazendo pouco benefício à província como um todo.

Por mais rica que essa região tivesse sido, seu período de prosperidade não durou muitos anos devido ao rápido empobrecimento do solo, provocado pela falta de cuidado dos fazendeiros, uma vez que não observaram as técnicas mais recomendadas para a conservação do mesmo.

Enquanto isso, o oeste paulista dava os primeiros sinais de um grande despertar.

Mas, como despertar?

Não havia meios para escoar sua produção! E isto fazia o mercado interno ocupar uma importância muito maior do que o mercado exportador.

Diante desse quadro não havia outra solução – a Serra do Mar tinha que ser vencida!

E foi!

Na tecnologia inglesa e no denodo de Irineu Evangelista de Souza – Barão e Visconde de Mauá, nasceu a São Paulo Railway – SPR.

Os paulistas passaram a enxergar o porto de Santos bem mais próximo do que em tempos passados.

E o gigante acordou!

Corria o ano de 1867 e, com a inauguração da SPR, a partir dessa data os quatro cantos do território provincial passaram a ser ocupados pelos ambiciosos e empreendedores homens da lavoura cafeeira.

Muita coisa mudou! No entanto, havia um entrave para um caminhar mais efetivo – o regime de escravidão.

É evidente que os escravos não tinham o menor interesse, e nem conhecimento, para desenvolver uma maior produtividade no campo agrícola. Além disso, havia dois outros fatores que incomodavam os senhores da terra – as revoltas violentas dos negros contra seus sofrimentos, e a forte movimentação social pela extinção definitiva da escravidão em terras brasileiras. Éramos o único país a manter esse abominável sistema de exploração da força braçal de seres subjugados.

Tinha que haver outro caminho!

E só havia um! A vinda de imigrantes!

Mas de onde? E por que?

 

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Imigrantes portuguesas a bordo de navio em direção ao Brasil – sem data

Em  primeiro lugar, de Portugal, por ser a cultura portuguesa a predominante na terra.

Na imagem vemos mulheres portuguesas emigrantes para o Brasil; no entanto a grande maioria era constituída por homens.

 

 

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Cesare Battisti – 1922- com imigrantes italianos

Em  segundo, da  Itália, pois esse país sofria o flagelo da pobreza, e desta advinha a fome.

Não podemos nos esquecer que, por volta de 1860, a Itália enfrentava a sua guerra de unificação comandada por Giuseppe Garibaldi.

Foi desse país o maior contingente de todos. Só entre 1882 e 1891 chegaram a Santos 202.503 imigrantes.

 

 

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Imigrantes espanhóis – 1890

Em  terceiro, da Espanha, pois este país, assim como os anteriores via a pobreza e a fome assolar seu povo.

Em seguida tivemos os alemães, austríacos, russos, franceses e outros.

Por essa razão, enquanto o Brasil procurava alternativa para a escravidão, outros estavam à procura de solução para minorar o sofrimento de seu povo.

Dessa forma, antes mesmo da extinção da escravatura, os imigrantes europeus começaram a chegar, e sua porta de entrada em nossa terra não poderia ser outra senão o porto santista.

 

Porto de Santos – embarque de imigrantes rumo a São Paulo – década de 1930 – web

Pelos trilhos da SPR galgaram a muralha serrana.

Foram, em sua maioria, para a lavoura.

Surgiu daí o fato curioso de livres e escravos trabalharem lado a lado.

 

São Paulo – chegada na Hospedaria dos Imigrantes – sem data – web

Ao  chegarem, mostraram uma enorme vantagem em relação aos negros, pois já possuíam conhecimentos adquiridos anteriormente. Além disso, tinham a vantagem de poder usufruir de um aumento da produtividade, pois parte dos lucros ficava com os mesmos.

Com novas técnicas e determinação no trabalho, o solo paulista pode mostrar seu potencial.

 

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Italianos – início do século XX

Se  na agricultura mostraram sua força, também se fizeram presentes na área urbana, com inúmeras inovações, tanto na prestação de serviços, quanto no comércio e na industrialização.

Despertaram nos paulistas o gosto pelas novidades de um mundo consumista e, enquanto as fazendas prosperavam, as chaminés ganhavam os céus das cidades.

Vagarosamente enriqueceram e, assim, foram ocupando seu espaço nas sociedades locais.

Se de início houve um natural preconceito contra os que chegavam, no fim a miscigenação foi irremediável. Surgiu, daí, uma sociedade cosmopolita, que só veio engrandecer a terra paulista.

 

Nos dias de hoje é impensável como seria São Paulo, sem os costumes, vocabulário, alimentação, religião, cultura, esportes e dedicação ao trabalho, que essa brava gente trouxe em sua bagagem.

 

Esses italianos inventam cada uma! Pasta a la Gamberi ! Sai de perto!

Se  trouxeram para nós mil coisas que contribuíram para nossas vidas, foi sem dúvida na alimentação, que marcaram mais sua presença.

 

O que agrada mais, as lindas alemãs, ou um chopp gelado?

Quebraram nossos preconceitos. Mostraram que até na alimentação o mundo é um só lugar.

 

Aquela província de então deixou de existir.

 

Tudo se modernizou!

 

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modahistorica.blogspot.com.br

De repente virou moda ser à europeia.

Fazendeiros, que antes  viviam com chapéus de palha de abas largas, e armas na  cintura, passaram a ser vistos nas cidades, com chapéus à moda inglesa, e vistosas correntes prateadas sustentando reluzentes relógios suíços.

Tudo isso acompanhado do infalível colete rigorosamente talhado, emoldurando corpos que antes percorriam a cavalo as extensas áreas rurais.

 

É evidente que suas esposas e filhas iriam acompanha-los no novo estilo de se vestir – brilho e luxo passaram a fazer parte da elite paulista.

 

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Mãe e filha.

Uma elite que brilhou no tempo do café.

 

 

Era como se ouvíssemos os fazendeiros dizerem:

– “Ora! Se há capatazes para a labuta diária, eles que o façam!”

E assim, São Paulo correu! Correu de forma incessante rumo a um futuro, que se era alcançado em um instante, no instante seguinte já se mostrava longínquo.

 

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Imigrantes italianos – sem data – foto web

Em  suas intermináveis curvas, os trilhos paulistas passavam, ora por entre cafezais sem fim, ora por “mares” de fumegantes chaminés.

Com a força do solo, a bravura de seu povo e a determinação imigrante não havia limites para a grande locomotiva que conduzia uma grande nação.

 

Se um viajante, ao percorrer até os limites territoriais daquela que foi a antiga e caipira província, perguntar:

– “Que lugar é este?”

Irá ouvir a resposta:

– “É o cosmopolita Estado de São Paulo ……. mas pode chamá-lo de Fraternal Abraço!”

É o abraço dos nativos com aqueles que aqui procuraram abrigo, e que vieram em busca de uma vida descente – de um futuro para si e seus filhos.

 

Vejamos, no final desta página, que em algumas fotos, as legendas dizem pouco – o olhar perdido daqueles que aqui chegavam, tudo revela!

Olhar de sonhos e esperanças de encontrar um mundo melhor – e encontraram e venceram!

Em nossa sofrida época, quando o drama imigrante tanto se revela ao mundo, São Paulo diz presente: mais uma vez acolhe aqueles que tanto esperam por um mundo melhor.

Que a partir desta data se façam presentes novos anos de esperanças …..

… e de novos abraços!

 

 

SEJAM SEMPRE BEM-VINDOS!

 

 

Peço licença à pesquisadora Maria Suzel Gil Frutuoso, da cidade de Santos, para transcrever trecho final de seu trabalho:

O café e a imigração em Santos

“Ao desembarcar no Porto de Santos, os imigrantes trouxeram muito mais que braços para trabalhar nas lavouras de café e na nascente indústria paulista. Os povos pertencentes às mais de 70 nacionalidades vieram com o sonho de “fazer a América” e acabaram por construir a história e a cultura brasileiras. Deles, o Brasil herdou sobrenomes, idiomas, costumes, comidas, vestimentas, ferramentas e utensílios. Parte desse legado está registrada e guardada no Memorial do Imigrante.

A maioria chegou ao País em busca de condições dignas de trabalho que permitissem refazer a vida. Fugindo da pobreza e cheias de esperança, milhares de famílias abandonaram suas casas e percorreram enormes distâncias em trens, carroças e a pé, até chegarem aos portos de onde poderiam embarcar para o Brasil. Sem recursos para custear a passagem, receberam subsídio do governo do Estado de São Paulo para pagar a viagem.

Com poucas informações sobre o mundo novo, os imigrantes chegavam sem saber o que iriam encontrar. Depois de enfrentar até 60 dias nos porões de um navio a caminho de uma terra estranha, o alívio tomava conta dos passageiros ao desembarcar em Santos. Essa sensação ia desaparecendo quando avistavam uma imensa muralha verde que parecia intransponível. Mas a primeira vista da Serra do Mar não era o que mais causava estranheza no olhar estrangeiro.

O que ficou marcado em suas memórias foi a viagem de subida rumo à Hospedaria de Imigrantes, na capital. Para a maioria, a viagem rumo a São Paulo começava assim que se colocava o pé em terra firme. Quando o trem iniciava a subida da serra, muitos tinham a impressão de estar em plena selva repleta de bichos. A então densa mata atlântica causava tal pavor que, não raro, os imigrantes se jogavam pela janela na tentativa de retornar a Santos. Não achavam possível haver cidade no meio daquele mato todo. Após vários incidentes, a São Paulo Railway passou a travar os vidros do comboio para evitar fugas.

Vencido o susto do primeiro contato, desembarcavam na estação da hospedaria. Exauridos, abriam as bagagens e as depositavam no corredor da estação para tomar sol e amenizar o mofo”.

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Finalmente, se em nossa terra eles foram imigrantes, em seu solo pátrio eram emigrantes.

Para estes, umas últimas, lindas e comoventes palavras:

 

O porto 

 

A vida tem cores cinza

quando vista a partir das retinas do porto.

Navios em espera cumprem o destino

de sacramentar partidas e chegadas.

Homens, histórias e suas trouxas

não decidiram ir.

Apenas deram o passo em direção às águas,

que, silenciosas, espiaram sem interferir.

Mulheres e crianças

derramaram lágrimas de adeus e boa sorte.

Tantos anos

de comum-vivência terminando ali,

e nenhuma palavra.

Apenas um aceno de mão.

                                                            (Fábio de Melo; Tempo: saudades e esquecimentos.
                                   O cotidiano como lugar de revelação)

 

 

 Deixa aqui, o autor deste site, sua homenagem e gratidão às famílias,

                                                                            Savone e Naszradi, que se eternizaram em sua vida!

 

 

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Italianos – olhos na saudade ou à espera de um futuro? – Memorial do Imigrante – sem data

 

 

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Italianos – um alimento chamado esperança – Memorial do Imigrante – sem data

 

 

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Embarque de emigrantes italianos – Memorial do Imigrante – sem data

 

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Baú de sonhos – Memorial do Imigrante – sem data

 

 

 

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Aviso aos emigrantes italianos que iam embarcar para São Paulo – 1886 – novomilenio

 

italia-navio-anna-c-aportou-em-santos-aos-27-07-1953-trazendo-a-bordo-minha-ex-exposa-rosa-savone-na-companhia-de-seus-pais-antonio-e-delizia-copia
Navio italiano Anna C – aportou em Santos aos 27-07-1955, trazendo a bordo minha ex-esposa Rosa, na companhia de seus pais Antônio Savone e Delizia Milano Savone – GRAZIE

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