A SPR e o Livro A Carne

É interessante a relação do livro “A Carne” com a ferrovia São Paulo Railway – SPR, bem como com a vila de Paranapiacaba e, ainda, com o autor do site.

Por quê?

julio-ribeiroO autor do livro, Júlio Ribeiro, nascido em Sabará/MG, viveu grande parte de sua vida nas cidades de Sorocaba e São Paulo. Foi jornalista na primeira e colaborador do jornal “O Estado de São Paulo” na segunda.

Nos últimos anos de sua vida, dirigiu-se a Santos, a fim de melhor tratar de sua saúde.

Fez a viagem pela ferrovia SPR no ano de 1887, desembarcando na famosa estação do Valongo.

 

Escritor e jornalista, detalhista que era, não exitou em se informar sobre a grandiosa obra ferroviária na serra de Paranapiacaba, e logo após sua chegada iniciou aquela que seria sua mais famosa obra.

Ao escrevê-la colocou-se na pessoa de Manuel Barbosa – personagem principal, ao lado da formosa Lenita.

 

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Viaduto da Grota Funda – maior obra da ferrovia – 1880 – foto Marc Ferrez – Editora Magma

Nessa época havia apenas a 1ª linha, iniciada em 15-05-1860, e aberta ao tráfego, até São Paulo, em 02-11-1865, quando da abertura ao tráfego do Viaduto da Grota Funda.

Não foi, no entanto, apenas o trecho serrano que despertou sua curiosidade. Partindo da Estação São Paulo com destino ao Valongo, não perdeu detalhes de tudo em sua volta.

Aquela São Paulo de então, simples e provinciana, com seu casario colonial, permitia que se avistasse ao longe, sem as intermináveis barreiras de concreto dos dias de hoje. E Ribeiro nada perdia!

 

– “Vejam a Cantareira ao fundo, com os meandros do Tietê! Suas várzeas a espera de suas enchentes anuais, desde as cabeceiras lá pelos lados de Mogy das Cruzes.”

– “Olha que edifício magnífico aquele em construção nos altos do Ypiranga! Será o grande monumento em homenagem à nossa independência. Vai ser uma escola!”

Seria!

Acabou se tornando nosso maior museu histórico.

 

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São Caetano do Sul – foram-se os vinhedos – surgiu uma linda cidade – data desconhecida – foto web

– “Ah, que vinhedos lindos estes de São Caetano! Esses italianos sabem fazer as coisas!”

E lá ia o trem com sua suarenta Maria-Fumaça fumegando por entre campos e matas.

– “Está esfriando!”

Mas não era para menos! O trem estava chegando a Ribeirão Pires. Era hora de Mata Atlântica fechada.

 

 

 

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Paranapiacaba – início do século XX – cartão postal – vê-se ao fundo, ao alto, a “igrejinha de Júlio Ribeiro” – foto web

E aí, eis que ela surgiu! A igrejinha no alto! Acanhada como o lugarejo aos seus pés. Era o Alto da Serra! Um lindo nome, para um mágico lugar. A Paranapiacaba de então era tão pobrezinha, mas já conduzia São Paulo rumo ao seu grande destino.

 

E foi assim que Júlio a enxergou:

“… à esquerda, rápidas, como que levantadas, emergidas subitamente, alteiam-se montanhas, visos, picos, paredões, agruras, despedaçamentos de cordilheira.

À direita, em anfiteatro pelo dorso escalavrado de uma eminência, casebres miseráveis; sobre o rechano uma igrejinha rústica, desgraciosa, malfeita, com três janelas, com dois simulacros de torres, a picar de branco o azul do céu e o escuro da mata.

É o alto da serra…”

Seguindo viagem, atento a tudo, viu se descortinar diante de seus olhos os precipícios dos vales serranos.

Se tudo o encantou, algo o deslumbrou – o Grota Funda!

– “Que obra fantástica! Só os ingleses poderiam fazer algo tão grandioso e belo.”

 

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O que restou do pioneiro, e o atual – 2007 – autor desconhecido

Hoje, porém, essa obra fica apenas na memória de quem a conheceu.

Tudo se perdeu!

Em 17-01-1974, após ser desativado, foi substituído por um viaduto de concreto. Anos após,  aquela que foi a maior obra em toda a ferrovia, desabou durante forte temporal.

 

Continuando sua viagem, ao descer a serra, Ribeiro se deparou com outra novidade.

– “Mas é difícil aguentar este calor abafado e sufocante!”

Sim!

Afinal, Júlio estava chegando a Cubatão e Santos!

No entanto, se ele reclamou da fornalha, também encontrou encantos na terra de Braz Cubas.

E foi na terra de “peixes e verduras maravilhosas”, que veio a falecer em 11 de novembro de 1890.

Mal sabia Júlio Ribeiro, republicano e abolicionista, que a espada de Deodoro logo iria bradar nos ares da Corte.

 

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Bandeira paulista – autoria de Júlio Ribeiro – foto web

Viveu menos de um ano no Brasil república, e não viu seu belo trabalho – a bandeira das treze listras se tornar bandeira nacional.

Como obra do destino, o movimento positivista escolheu outra para pavilhão da pátria. Mas São Paulo, local em que viveu, a aceitou com orgulho, e esse pavilhão se tornou o símbolo da terra paulista.

Júlio Ribeiro, polêmico e anticlerical, legou-nos em sua obra detalhes não só de nossa terra, mas também da escravidão de então, em memorável descrição em seu livro.

 

Quanto ao autor do site, o mesmo é sobrinho de Waldyr Cruz, cearense, que foi casado com uma irmã de seu pai.

No ano de 1952, Waldyr  foi produtor de um dos três filmes que foram baseados na obra de Júlio.

Ele foi exibido no Cine Avenida, em Mogi das Cruzes, onde  o autor do site passou sua infância.

 

Jornal dos Sports -21-06-1952 – acervo do autor

No intuito de levantar numerário para financiar a obra, seu tio emitiu títulos que foram vendidos a Cr$ 1.000,00 cada, porém o filme não teve a acolhida que se esperava. O prejuízo foi inevitável.

Waldyr conseguiu, a muito custo, resgatar honrosamente todos os títulos. A tarefa levou anos, mas chegou ao seu fim.

Das doze cópias que foram feitas, duas estavam em poder da tia do autor do site, mas a mesma as destruiu, por julgar imoral o filme, e por ser causa de tanto prejuízo financeiro.

Por essa razão, poucos documentos restam desse filme, e alguns estão em poder do autor: são fotos dos estúdios, cenas do filme, alvará do Serviço de Censura de Diversões Públicas, etc.

 

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Estúdio Brasil Arte Filme – atores e equipe técnica – Waldyr Cruz é o primeiro à esquerda – 1952 – acervo do autor

O filme foi rodado nos estúdios da Brasil Arte Filme, na cidade de Americana/SP. Estes estavam localizados em enorme terreno, onde hoje se encontra o Jardim Brasil, às margens da rodovia Anhanguera, à direita no sentido interior.

 

 

VEJAMOS, AGORA, UM POUCO DA SPR NAS PALAVRAS DE MANUEL BARBOSA EM CARTA PARA SUA AMANTE LENITA, ASSIM QUE CHEGOU A SANTOS

“A estrada de ferro inglesa de Santos a Jundiaí é um monumento grandioso da indústria moderna.

De Santos a São Paulo percorre ela uma distância de 76 quilômetros.

Todas as obras de arte dos terrenos planos são admiravelmente acabadas, são perfeitas.

Até a raiz da serra a distância é de 21 quilômetros: há três pontes, uma das quais notabilíssima, sobre um braço de mar chamado Casqueiro. Mede ela 152 metros, tem dez vãos iguais, assenta sobre pegões robustíssimos.

Da raiz da serra até o rechano do alto, contam-se oito quilômetros. A altura é de 793 metros, o que dá um declive quase exato de dez por cento.

Como se calcam esses desfiladeiros, essas agruras vertiginosas?

De modo simples.

Divide-se a subida da serra em quatro planos uniformes de dois quilômetros cada um. Para a tração, empregou-se um sistema adotado em algumas minas de carvão da Inglaterra. Máquinas fixas de grande força recolhem e soltam um cabo fortíssimo, feito de fios de aço retorcidos. Preso às duas pontas desse cabo giram dois trens: um sobe, outro desce. A agulha de odômetro indica com precisão matemática o lugar do plano em que se acha o trem, indica o momento de encontro de ambos eles. Um brake de força extraordinária permite suspender-se a marcha quase instantaneamente, e um aparelho elétrico põe os trens em comunicação imediata com as respectivas máquinas fixas. O Cabo resfriado ao sair por um filete de água, corre sobre roldanas que se revolvem vertiginosas, com um ruído monótono, metálico, por vezes forte, por vezes muito suave.

O serviço é regular e tão bem feito, que em grandes extensões há um único jogo de trilhos a servir tanto para a subida como para a descida. Funciona a linha há mais de vinte e um anos e ainda não se deu um só desastre. Pasmoso, não?

Em cada uma das quatro estações de máquinas fixas há cinco geradores de vapor, três dos quais sempre em atividade. As grandes rodas estriadas que engolem e soltam o cabo, as bielas de ferro fundido que as movem, os mancais de bronze, os excêntricos em que o ferro rola sobre bronze com atrito doce, tudo está limpo, luzente, azeitado, funcionando como um organismo são. Chaminés enormes, que se enxergam de longe, feitas de cantaria lavrada em rústico, atiram aos ares balcões de fumo, enovelados, densos.

Os desbarrancamentos são remendados a alvenaria; todas as águas perenes, todas as torrentes pluviais estão dirigidas, encanadas, por calhas de pedra, de tijolos, de juntas tomadas, por bicames de madeira. Há encanamentos subterrâneos feitos em granitos, gradeados de ferro, que fazem lembrar os calabouços dos solares feudais.

Na serra de Santos a obra do homem está de harmonia com a terra em que assenta; a pujança previdente da arte mostra-se digna da magnitude ameaçadora da natureza.

O viaduto da Grota Funda é simplesmente uma maravilha. Mede em todo o comprimento 715 pés ingleses, mais ou menos 215 metros. Tem 10 vãos de 66 pés e um de 45 entre duas cabeceiras de cantaria; assenta sobre colunatas de ferro engradadas (treillages) e sobre um pegão do lado de cima. A mais elevada colunata, contando a base, tem 185 pés, 56 a 57 metros. A inclinação é a inclinação geral, ou pouquíssimo menos. Começou-se esta obra assombrosa em 2 de julho de 1863; em março de 1865 assentaram-se-lhe as primeiras peças de ferro; em 2 de novembro do mesmo ano atravessou-a o primeiro trem, 2 de novembro, dias dos defuntos, os ingleses não são supersticiosos.

Uma empresa hors ligne, esta companhia de estrada de ferro. O resultado foi além da mais exagerada expectativa otimista. O governo geral garantiu cinco por cento sobre o capital empregado na construção, e o provincial dois. De há muito, porém, que a companhia prescindiu de garantia, e que distribui dividendos fabulosos.

Ganham, ganham muito dinheiro, ganham riquezas de Creso os ingleses, e merecem-nas. O progresso assombroso de São Paulo, a iniciativa industrial do paulista moderno; a rede de vias férreas que leva a vida, o comércio, a civilização a Botucatu, a São Manuel, ao Jaú, ao Jaguera, tudo se deve à Saint Paul Rail Road, à Estrada de ferro de Santos a Jundiaí.

 

A Júlio Ribeiro e a Waldyr Cruz as homenagens deste site

 

 

Foto original usada em cena do filme – atriz Elpídia Pastrello – acervo familiares da mesma

 

Cena do filme – da esquerda para a direita Mary Ladera, Sadi Cabral e Guido Lazzarini – acervo do autor

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