O Café em São Paulo

UM POUCO DE HISTÓRIA

 

Em que momento de sua jornada o ser humano descobriu o prazer de consumir essa bebida, que a tantos encanta?

Se o tempo é incerto, também o é o local onde pela primeira vez os homens descobriram as qualidades dessa frutinha vermelha que mexe com tantas emoções!

Entre lendas e mais lendas que tentam desvendar esse mistério, vamos ficar com a mais comumente usada na história.

“Em áridas montanhas da Etiópia, Kaldi, pastor de ovelhas, observou o poder excitante que essas frutinhas exerciam sobre seus animais, deixando-os lépidos, mais resistentes, subindo montanhas por quilômetros seguidos. Ao experimentar a misteriosa fruta, comprovou seu poder estimulante.

Não durou muito para que, nascida de delicadas e perfumadas flores brancas, a frutinha deixasse as terras etíopes levada pelos árabes para a Península Arábica”.

Por volta do século XI o café ganhou seu lugar no desejo dos homens, consumido como chá, bebida alcoólica, estimulante em vigílias noturnas ou, simplesmente por mero prazer. Dessa forma transformou-se na bebida mais consumida em todo o mundo.

Chegando ao continente europeu, ficou o café como que aguardando as grandes navegações para poder ganhar os quatro cantos do mundo.

Licor do Oriente”, “Licor dos Trópicos”, “Bebida de hereges muçulmanos”, quase foi excomungado, porém teve seu batismo proposto por Sua Santidade, a fim de se tornar uma bebida cristã.

Girou o mundo, passando por Rússia, China, Sumatra, Cairo, Oriente Médio, Amsterdã, Londres e, finalmente Paris, onde ganhou ares aristocráticos.

Não durou muito, porém, para fazer pouso em terras italianas, onde encantaria príncipes, poetas, músicos, artistas e toda a nobreza local.

Enfim, trazido pelos franceses para sua colônia guianense, não foi difícil alcançar as terras brasileiras pelas mãos de Francisco de Melo Palheta.

 

O BRASIL

 

A história sempre é escrita por grandes e pequenos momentos. Há ocasiões em que ela caminha a passos estreitos, sem que as pessoas se deem conta das alterações que se processam, mas há momentos em que verdadeiras revoluções econômicas, científicas, religiosas, políticas e sociais mudam drasticamente o rumo dos acontecimentos.

Em quinhentos anos de vida, nosso país nunca viveu momento de tanta transformação quanto o despertar paulista do século XIX.

Até em tão, regiões nordestinas, Minas Gerais e a Corte dominavam o cenário nacional, baseando suas riquezas tanto na cultura da cana-de-açúcar, quanto na mineração, enquanto a terra bandeirante, isolada, bruta e caipira caminhava a passos próprios, mais voltada para si mesma e para o interior, do que para o litoral e assuntos lusitanos.

O   Rio de Janeiro, nossa Corte, reluzia em tempos de independência.

O Império se equilibrava entre passado e presente a toque de revoltas que eclodiam por toda a nação. Republicanos, monarquistas, escravagistas e abolicionistas se digladiavam, cada qual tentando forjar o futuro ao lume de suas ideias.

Longe desse burburinho, quieto em seu canto, o gigante paulista se agitava.

 

… E O CAFÉ CHEGOU A SÃO PAULO

 

Podemos dizer que foi no início desse século XIX que o café entrou em solo paulista.

Entrou pelo Vale do Paraíba, por ser a região mais próxima da zona fluminense, onde sua cultura já imperava, convivendo com, e até substituindo, a cultura canavieira.

Em seu início levou progresso e riqueza para a região – Areias, Bananal, Silveiras, Lorena, São José do Barreiro, e outras menores, conheceram o valor dessa cultura.

Apesar de ficar em solo paulista, essa região tinha muito mais razões para exportar sua produção pelo porto do Rio de Janeiro. Não só pela pequena distância do mesmo, quanto também pelo fato de nossa capital federal estar mais próxima dos portos europeus e americanos e, ainda, porque o porto de Santos era inviável para grandes embarcações, por não possuir cais; portanto, tudo o que se produzia nessa região escoava pelo porto fluminense.

Essa foi a razão do governo imperial ter construído a Estrada de Ferro D. Pedro II somente até a cidade de Cachoeira/SP, pois somente até ali havia produção agrícola exportável.

Um fato, no entanto, determinou o rápido declínio da produção cafeeira nesse vale paraibano.

Por ser uma região muito montanhosa, o café tinha que ser cultivado morro acima. Isto exigia que a cultura tinha que ser feita em curvas de nível para evitar o desgaste do solo provocado pelas enxurradas, em épocas de chuva.

 

Cafezal florido – vide as curvas de nível na área do morro – foto web

No entanto, apesar dessa técnica já ser conhecida, os fazendeiros optaram por fazer as culturas em linha reta, dos topos às bases dos morros.

 

Escravos em cultura de café, em linha reta, nos morros do Vale do Paraíba – 1882 – Marc Ferrez – acervo Instituto Moreira Salles

Qual a razão?

Simplesmente para poderem controlar o trabalho dos escravos, uma vez que, dessa forma, estes ficavam visíveis a partir dos casarões que ficavam nos sopés dos morros.

Não se sabe se essa vigilância foi eficaz, mas uma coisa restou – o empobrecimento rápido do solo. Além do enorme desgaste da camada fértil deste, tivemos ainda, o desastre do assoreamento dos rios.

Tudo em nome do dinheiro!

Apesar disso, conseguiram os fazendeiros amealhar quantia necessária para a compra de novas terras em solos ainda virgens.

Aliado a esse fato, tivemos, nessa época, o declínio da produção aurífera em Minas Gerais, o que fez com que muitos aventureiros procurassem terras para investir o que haviam economizado.

E o oeste paulista aguardava a todos!

 

… E SÃO PAULO ACORDOU PARA O BRASIL

 

Homens intrépidos – paulistas, escravos e forasteiros –  foram à luta e, com a força de seus braços, lavraram a terra dantes selvagem. Na lavoura cafeeira encontraram o novo rumo para suas vidas.

Um fato, porém, viria dificultar suas pretensões – essas terras ficavam longe da Corte, inviabilizando a exportação por seu porto.

 

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Antiga Bolsa de Café em Santos – hoje Museu do Café – sem data – foto web
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Porto de Santos – embarque de café – início do século XX – acervo Francisco Carballa – site novomilenio

Só  restava uma alternativa – o porto de Santos!

Porém, novo obstáculo surgia – a muralha da Serra do Mar!

Essa região, íngreme e de altíssima pluviosidade, encarecia demais o transporte por mulas.

 

Dessa forma, a cultura cafeeira só seria rentável até uma distância de 200 quilômetros a partir do porto. E era justamente nessa região, que florescia a antiga cultura da cana-de-açúcar.

 

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Quadrilátero da cana – vide o quanto era pequeno e insignificante em relação ao Estado de São Paulo – montagem do autor

Surgiu, desse fato, o chamado quadrilátero da cana – região compreendida entre as cidades de Jundiaí, Itu (Porto Feliz), Piracicaba e Mogi Mirim. Entre as duas últimas tínhamos a cidade de Limeira, que viria a ser de grande importância no desenvolvimento de toda a região.

Campinas era a grande metrópole nessa ocasião, justamente por ficar no centro desse quadrilátero. Essa foi a razão de os campineiros desejarem, por muito tempo, que sua cidade viesse a ser a capital da província.

 

Fazia-se necessário, assim, um novo meio de transporte até o porto santista, para que novas terras fossem desbravadas e, em solo fértil florescessem novas culturas.

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Cafezal em solo plano – sem curvas de nível – foto web
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Cafezal e sua maturação – o chamado café cereja – foto web

Nessas novas áreas encontravam-se grandes manchas da chamada terra roxa – uma corruptela do italiano terra rossa – por ser a mesma vermelha. Esta formava um solo altamente rico, possuindo todas as condições para abrigar a nova cultura, tanto exigente em nutrientes.

 

Diante desse quadro, os homens não viam a hora de poder abrir suas novas fazendas, porém sua luta seria inglória, não fosse a firme decisão de um dos mais ilustres brasileiros, em todos os tempos – Irineu Evangelista de Sousa – Barão e Visconde de Mauá.

Exemplo de homem, em todos os sentidos, Mauá deixou a marca de seu caráter, tão frágil em nossos governantes de hoje – que tanto alardeiam seus valores. Mauá e outros de sua época enxergaram a força do povo paulista, mas coube somente a ele a grande tarefa da revolução do transporte que viria elevar São Paulo ao topo máximo da economia do país – o trem.

Foi vencida a barreira da grande serra!

Surgiu aquela que viria a ser a mais importante ferrovia brasileira – a São Paulo Railway,  SPR!

De seu pioneirismo muitas outras vieram – Paulista, Sorocabana, Mogiana, Araraquarense, Noroeste – e outras menores, tais como a Bragantina e a Douradense.

Essa expansão da malha ferroviária fez com que muitas vilas e pequenas cidades se transformassem em grandes centros populacionais.

Dessa forma, essas ferrovias, que foram obras dos cafeicultores locais, viriam a ser vibrantes e desbravadoras, alargando horizontes rumo a todos os rincões da província.

São Paulo dava seu brado de vitória e forjava um novo Brasil.

Os caipiras mostravam sua força – se tornaram a grande locomotiva que, até os dias de hoje, conduz o país rumo ao seu futuro.

 

… E CHEGOU O DIA DA VITÓRIA DO CAFÉ

 

Obrigatório, no entanto, se faz uma ressalva.

Se os fazendeiros mostraram sua força e decisão, não podemos nos esquecer daqueles cujos braços deram início a essa riqueza paulista – os escravos negros.

Estes foram trazidos para nossa terra à sua revelia; no entanto, apesar de enfrentarem péssimas condições de trabalho e sem remuneração, foram se adaptando ao serviço e, bem ou mal, cumpriram sua missão.

Muitos os chamaram de indolentes, por sua baixa produtividade, mas, nas condições em que vieram e trabalharam, nenhum ser humano haveria de sentir estímulo para aumentar os lucros de seus proprietários.

Apesar disso, com o suor de seu trabalho, ajudaram a transformar o Brasil de “terra dos papagaios” em uma florescente nação tropical.

 

Escravos na colheita – 1882 – Rio de Janeiro – Marc Ferrez – acervo Instituto Moreira Salles – foto web

 

 

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Imigrantes japoneses na colheita do café – sem data – foto web
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Imigrantes na colheita do café – 1930 – Teodor Preising – acervo Museu do Café de Santos

Deve-se destacar, ainda, a posterior vinda de imigrantes para o solo paulista, nos momentos derradeiros da escravidão.

Sua presença foi efetiva, não só na lavoura cafeeira, como também em um grande desenvolvimento industrial, comercial e de prestação de serviços.

Nessa ocasião, uma vez que o continente europeu enfrentava grave crise de empregos, para cá vieram muitos artífices, comerciantes e pequenos industriais que se instalaram em diversas cidades, e deram início a novas atividades, que haveriam de gerar empregos e riqueza financeira.

Dentre as atividades industriais, podemos destacar a introdução de novos meios para a colheita e preparo do café, visando os mercados interno e de exportação.

Como consequência, a produção cafeeira no oeste paulista suplantou, em muito, àquela que antes vicejava no Vale do Paraíba.

Em 1860, ano em que foi iniciada a construção da SPR, apenas 10% da produção brasileira de café tinha sua origem nesta última região.

Já, a partir de 1867, ano de sua inauguração, a SPR, em poucos anos, triplicou sua receita. Foram várias as razões para isso: a chegada dos imigrantes, que por ela subiam; o grande aumento de viagens, uma vez que a Corte e o continente europeu ficaram mais acessíveis; o grande crescimento das importações; mas sobretudo, pelo crescimento vertiginoso da exportação cafeeira, oriunda das terras desbravadas para além do antigo quadrilátero da cana..

 

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Propaganda do Estado de São Paulo em francês – Bruxelas – 1910 – vide a grande vantagem que São Paulo levava em relação a outros estados e países – novomilenio

Na  década de 1910 o café representava cerca de 60% das receitas de exportação do país, e São Paulo respondia por cerca de 90% desse total.

Pouco antes dessa data – 1901 – foi inaugurada a duplicação da SPR, pois a primitiva linha já não dava conta do grande aumento de movimento.

Nessa ocasião a SPR já contava com a produção cafeeira vinda através das demais ferrovias citadas acima, mas iria enfrentar, dentro de trinta anos, a concorrência da Estrada de Ferro Sorocabana, que abriria seu ramal a partir de Mairinque (próximo a Sorocaba) e atingiria a baixada santista em Samaritá (bairro de São Vicente).

 

Propaganda do Estado de São Paulo – jornal Folha de São Paulo – 05-01-1974 – Arquivo Público do Estado – pesquisa do autor

 

 O CAFÉ E SEUS BARÕES

 

Voltando um pouco no tempo, vamos observar que, com o grande enriquecimento da província, não é de se estranhar que os cafeicultores paulistas  passassem a exercer forte influência na política nacional. Este fato se tornou evidente na campanha republicana.

Ao financiarem a construção da Estrada de Ferro Ituana, os barões do café já haviam se decidido pela fundação de um partido político que viesse a lutar pelos ideais que já tinham se concretizado em todo o território americano – a república.

Assistimos, assim, a fundação do Partido Republicano Paulista – PRP, apenas um dia após a inauguração da citada ferrovia. Este fato ocorreu na cidade de Itu, no dia 18 de abril de 1873, no evento que veio a ser conhecido como a Convenção Republicana de Itu.

Se D. Pedro II foi o mais digno governante de nosso país, não era possível que tivesse meios para governar um território que se agigantava a cada momento, afinal, depois de mais de quarenta anos no poder, não tinha mais forças para o “Brasil presente” e, muito menos para o “Brasil futuro”.

Nossa terra ficou grande demais para apenas um homem.

Com grande poder financeiro, e decididos por lutar pelo novo regime, não foi difícil, para “nossos barões”, levarem a cabo a desejada tarefa.

Estava selada a sorte da monarquia brasileira!

A partir desse momento, por quarenta anos o café diria “presente” na política nacional.

Estava instituída a “política do café com leite”, onde São Paulo e Minas Gerais se uniram pelo poder maior da pátria.

Em terras paulistas, a força do café financiava as novas industrias que ali se instalavam. Se no campo o verde da lavoura cobria o solo avermelhado, nas grandes cidades as chaminés marcavam sua presença, numa demonstração de pujança e desejo de expansão sem fim.

No entanto, sabemos que a história é implacável!

Com esse poderio financeiro imperando nas terras paulistas, era impensável que chegasse o dia em que a lavoura cafeeira sofresse sua derrota, arrastando riquezas para a ruína completa.

Porém, esse dia chegou – 24 de outubro de 1929!

Como em um passe de mágica, o preço do café rolou pelas ladeiras da economia mundial – São Paulo sentiu o baque!

Estava selado o fim dos barões do café!

A partir desse instante, apesar de continuar sendo forte a presença cafeeira em São Paulo, estava aberto o caminho para a nova riqueza paulista – a industrialização.

Se esta última encontra, nos dias de hoje, sua própria força geradora, partindo para novas conquistas à custa de si própria, não se pode esquecer, jamais, que foi através do café que São Paulo encontrou o rumo para liderar e conduzir o Brasil até os dias de hoje.

 

O CAFÉ PAULISTA FOI A PORTA DE ENTRADA DO BRASIL EM NOSSO MUNDO ATUAL!

 

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Aureliano Pereira de Barros e esposa – pioneiros do café – Fazenda Pouso Alegre de Cima – Jaú – século XIX
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Igreja Matriz de Nossa Senhora do Patrocínio – Jaú – o dinheiro do café a construiu – foto web

 

 

 

 

 

 

 

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Residência de colonos – Fazenda Ibicaba – Cordeirópolis/SP – sem data – foto web

 

 

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Secagem de café no terreiro – sem data – foto web
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Tulha para armazenagem de café – Fazenda Pouso Alegre de Cima – Jaú – foto do autor

 

 

 

 

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Santos – sacas de café aguardando embarque – 1902 – foto Marc Ferrez – Editora Magma

 

 

 

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Santos – embarque de café – início do século XX – cartão postal – acervo Waldir Rueda – novomilenio
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Santos – vapor alemão Silvia – maior carregamento de café do Brasil – 130 mil sacas – acervo Waldir Rueda – novomilenio

 

 

 

 

 

 

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