A SPR e Paranapiacaba

 “… à esquerda, rápidas, como que levantadas, emergidas subitamente, alteiam-se montanhas, visos, picos, paredões, agruras, despedaçamentos de cordilheira.

À direita, em anfiteatro pelo dorso escalavrado de uma eminência, casebres miseráveis; sobre o rechano uma igrejinha rústica, desgraciosa, malfeita, com três janelas, com dois simulacros de torres, a picar de branco o azul do céu e o escuro da mata.

É o alto da serra…”

                                                   

Júlio Ribeiro – livro A Carne

2-1865-militao-augusto-de-azevedo
1865 – Militão Augusto de Azevedo – foto web

 Júlio talvez tenha sido a primeira pessoa a deixar um registro sobre essa que foi uma misteriosa vila ferroviária serrana – única em nosso país.

Paranapiacaba foi um marco em termos geográficos e sociológicos, surgida do nada, nos idos 1860. Não se sabe o dia e o mês em que ela veio ao mundo.

Nem quem foi o primeiro a ali se instalar e, muito menos em que local o fez.

Talvez tenha sido muito antes do início da construção da ferrovia SPR.

É bem possível!

 

Era um “lugar de onde se avista o mar”, ou, para outros, a “passagem do caminho para o porto de mar”.

Além desses dois qualificativos, também possuía vasta rede hídrica e estava incrustada na mais bonita mata brasileira – a Mata Atlântica.

Peixes pouco havia – eram riachos! No entanto, grandes animais de caça e aves abundavam na região.

Também havia o palmito – sempre muito apreciado pelos homens; raízes comestíveis, e frutas em abundância.

Já havia também o Cambuci, típico da região, e conhecido desde o tempo dos indígenas.

Por que alguém não haveria de querer se fixar ali?

Também não se sabe o motivo, mas foi território de divisa entre Tamoios e Tupiniquins.

Será que essa tenha sido uma razão para nenhuma das duas nações terem se fixado por lá?

Não se sabe!

Sabe-se, também, que em tempos de colonização foi passagem para viajantes e tropas de comerciantes. Estava inclusa no Caminho do Sal. Pelo menos nessa ocasião, quando não mais havia o confronto indígena, alguém haveria de dizer:  “É aqui que vou morar! Este é o meu lugar!

Tudo é mistério!

Daniel Mackinson Fox, o engenheiro inglês que estudou e elaborou o traçado para o novo meio de transporte, que haveria de mudar a história de nosso país, por ali deve ter dormido muitas e muitas noites.

Será?

É bem capaz!

No entanto, pelos registros que temos em mãos não sabemos o exato local em que ficou, muito menos se restou algo que foi aproveitado quando do estabelecimento dos primeiros operários.

Sabemos que as obras da ferrovia foram iniciadas em 15-05-1860, na cidade de Santos. Muitos discursos; o presidente da província presente, e o povo a bater palmas.

 

piassaguera-10-1913-cartao-postal
Piassaguera -1913 – início da serra – à direita o 1º funicular; à esquerda o 2º – foto web

Sabemos que em trinta de agosto desse mesmo ano, as obras foram iniciadas em Piassaguera, na raiz da serra. Outra grande comemoração.

Finalmente, sabemos que em vinte e quatro de novembro seguinte as obras foram iniciadas na cidade de São Paulo.

E no Alto da Serra?

Nenhuma palavra!

Pela lógica dos fatos, deve ter sido nesse mesmo ano de mil oitocentos e sessenta.

Vamos ficar com ele! Surgiu, assim, o pequeno núcleo de trabalhadores, com poucos empreiteiros e engenheiros, e que um dia deixaria de ser mera referência geográfica – seria Paranapiacaba!

Quem foram esses trabalhadores? Em grande parte, brasileiros e portugueses, mas há registros da presença de ingleses e norte-americanos. Talvez, de forma isolada, também de outros locais.

 

parana-1-1880-marc-ferrez-editora-magma
Paranapiacaba – 1880 – Marc Ferrez

Foram homens simples, que um dia deixaram seus lares. Dificilmente acompanhados de familiares, viveram em um ambiente rude e, até hostil. Eram quase todos estranhos uns dos outros.

Não é difícil imaginar o quanto tenha sido problemática essa convivência. Homens nessas condições – sem esposas e filhos para aplacar os ânimos – não costumam ser muito cordiais entre si. Discussões e brigas seriam, e foram, inevitáveis.

Se por um lado a convivência foi difícil, por outro, surgiu a solidariedade. Solidários para enfrentar as adversidades do local, mas, também solidários perante os patrões.

A história nos mostra que é sempre assim! Em meio a discussões, brigas e mortes, o corporativismo se faz presente.

Apesar de todos os percalços surgidos, as obras seguiram, e os trilhos foram assentados.

Também  não  se sabe  quando  soou  o primeiro  apito  de  uma  “escandalosa maria”,  mas temos uma data de suma importância – 21-08-1865.

Nessa data partiu da vila a primeira locomotiva rumo a São Paulo. Foi a abertura do trecho de planalto. Na capital houve grande regozijo e comemorações. O trem chegou à chácara do Sr. Felício Antônio Fagundes, onde hoje temos o bairro do Brás. O anfitrião recebeu a todos, que para lá acorreram, com água, sucos e lanches. A imprensa se fez presente.

E na pequena, acanhada e pobre vila serrana?

Houve festa e vivas?

Talvez! Afinal, já se conhecia a famosa cachaça de Cambuci.

No entanto, não há registros.

O fato é que nesse dia um pequeno acampamento de operários se transformou em uma vila ferroviária – o trem deixou de ser futuro!

Muitos dos trabalhadores foram aproveitados nas novas funções, mas ainda faltava algo.

 

1o-funicular-grota-funda-1
Viaduto da Grota Funda – 1º funicular – talvez foto de Marc Ferrez – sem data

Na  serra os trabalhos não estavam prontos.

Até o 3º patamar, onde se situava aquela que seria a maior obra da ferrovia – o Viaduto da Grota Funda – já chegavam os trens vindos da baixada santista.

Mas, esse viaduto!!!

Foi duro de terminar! E um dia o foi.

Aos 02-11-1865 passou por ele o primeiro trem, que iria completar o trecho da ferrovia entre Santos e São Paulo.

Entrou, assim, em operação a 4ª máquina fixa; aquela que faria história junto aos “casebres miseráveis” de Júlio Ribeiro.

E o que eram essas máquinas?

Eram as máquinas que tracionavam os trens através de cabos de aço.

Todas eram iguais, mas as demais ficavam na serra, onde havia poucos trabalhadores. Já em Paranapiacaba as coisas eram diferentes. Ali ficava o pátio ferroviário, as residências dos engenheiros, o núcleo urbano – com farmácia, hospital, clube, cinema, campo de futebol, igreja, etc.

Havia a oficina das locomotivas, e o viradouro.

Ainda não havia a estação dos trens. No entanto, era a sede da administração do trecho serrano da ferrovia.

Com esse movimentar de homens e obras, não poderia ser diferente – atraiu comerciantes!

Bento José Rodrigues, partindo de Mogi das Cruzes se estabeleceu no chamado “Morro”, ou Parte Alta.

Corria o ano de 1862.

E o que era o “Morro”?

É preciso saber que os ingleses obtiveram do governo federal a concessão de uma área para a instalação da vila de operários e, posteriormente, dos ferroviários. Por essa razão não foi permitida, àqueles que  não eram operários, a instalação de moradias ou comércio, junto dos trabalhadores. Dessa forma, Rodrigues, e os que o acompanhavam, se dirigiram para o outro lado da ferrovia, e se instalaram em parte mais alta do que aquela ocupada pelos ingleses.

Assim, o Alto da Serra foi vagarosamente dando seus primeiros passos e, um dia se tornaria um ponto de encontro: encontro de busca pelas necessidades básicas; pela assistência médica; pela escola para os filhos; e pelo laser.

 

1o-funicular-17-4o-patamar-1900
Serrabreque chegando em Paranapiacaba – 1900 – foto web

Voltando a falar da serra, já vimos que o transporte era feito com a utilização de cabos de aço. No entanto, era perigoso esse sistema e, para sua segurança, os trens contavam com os serrabreques que, presos aos cabos, iriam trabalhar sempre dois a dois – enquanto um subia outro descia.

E assim, Paranapiacaba seguia sua rotina.

Com frio, chuva, neblina, vento e garoa, os ferroviários iam dando conta do recado na ligação entre o planalto e o porto santista.

No passar do tempo, o movimento de cargas e passageiros aumentou consideravelmente, exigindo a duplicação da linha.

O Brasil já era República e, ao entrar no século XX, já ostentava ares de modernidade.

E chegou o grande dia!

Em 01-03-1901 seria inaugurada a segunda linha, junto com um novo marco na cidade de São Paulo – a Estação da Luz.

Nascia, aí, uma nova Paranapiacaba!

Com a inauguração do novo sistema funicular, na chamada serra nova, tudo mudou.

 

2o-funicular-25-locobreque
Locobreque – sem data – foto web

O sistema se modernizou – surgiram as “modernas” locobreques. Estas não apenas subiam e desciam a escarpa serrana – também eram manobreiras, e se faziam presentes no pátio ferroviário.

Com dupla linha, Paranapiacaba haveria de crescer. Esta segunda linha foi estendida em dois quilômetros – de oito, passou a ter dez e, com isso foi necessário construir uma casa de máquinas a mais, e Paranapiacaba abrigou nessa linha a 5ª máquina fixa.

Com o aumento do número de ferroviários e engenheiros, não perderam tempo os administradores. Construíram a chamada Vila Martin Smith, que iria abrigar os que chegavam, juntamente com os familiares dos que eram casados.

Aproveitaram e reformaram o antigo lugarejo – hoje chamado Vila Velha.

Era preciso acomodar de forma decente a todos que iriam trabalhar na nova Casa de Caldeiras, na nova Máquina Fixa, no pátio ampliado, na nova oficina de máquinas, na ferramentaria, e em outras atividades.

Foi ampliada a estação.

Novos passageiros chegavam e partiam.

Ouvia-se novos apitos de novas “escandalosas marias”.

Dos novos patamares serranos, outra leva de operários passou a exigir uma vila mais acolhedora.

Tudo melhorou!

Futebol, festas e bailes se tornaram rotina, a fim de amenizar o cansaço do duro trabalho diário daqueles que fariam Paranapiacaba se transformar no centro nervoso de 139 quilômetros de linhas entre Santos e Jundiaí.

Vivendo seus momentos de crise, até com desastres fatais, a vila serrana garantiu o transporte de mercadorias e passageiros, bem como a vinda daqueles que ajudariam a construir São Paulo – os imigrantes.

 

PARANAPIACABA CUMPRIU SUA MISSÃO!

 

 

 

 

3-1865-militao-augusto-de-azevedo
Paranapiacaba – 1865 – Militão Augusto de Azevedo
a
Paranapiacaba – 1899 – 1º funicular – Marc Ferrez

 

 

13-a-esquerda-o-2o-funicular
Paranapiacaba – à direita o 1º funicular; à esquerda o 2º – sem data

 

 

 

12-plataforma-de-embarque
Paranapiacaba – plataforma de embarque e, ao fundo, ponte de ligação entre o Morro e o lado inglês – sem data
24-2o-funicular
Paranapiacaba – 2º funicular – cabine de controle de tráfego – sem data

 

 

Deixe uma resposta