São Paulo – uma pequena história

 De Martim Afonso a Brás Cubas

 

São Paulo de Piratininga, a vila fundada em 1560 por Mem de Sá, então Governador-Geral do Brasil, haveria de repousar, sonolentamente, junto às águas do Tamanduateí por exatos três séculos. Nesse tempo, o suor, a luta e o destemor foram marcas perenes do povo da terra. Passados esses duros anos, acordaram os paulistas e, deixando as margens do sagrado rio, se aventuraram  e navegaram pelo leito de seu quase irmão – o Tietê – rumo às distantes terras virgens e incultas, e viram, finalmente, o café germinar nos sulcos abertos pelos trilhos de todas aquelas ferrovias que nasceram da obra pioneira dos ingleses – a querida e eterna São Paulo Railway – a SPR. 

 

 

Martim Afonso, fundador de São Vicente, recebeu sua capitania das mãos do rei D. João III.

 

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Brás Cubas, fundador da cidade de Santos, recebeu sua sesmaria de Ana Pimentel, esposa de Martim Afonso, que se encontrava nas Índias.

 

 

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Brás Cubas – tela de Benedito Calixto – web

 

Nesse letárgico período inicial, São Paulo viu, após o reinado de D. João III, o surto colonizador voltar-se, praticamente todo, para a região nordestina e para as ricas terras mineiras.

Após o grande fracasso do sistema de capitanias hereditárias o Brasil recebeu seu primeiro Governador-Geral – Tomé de Souza. Foi dada, nesse momento, a partida para a efetiva colonização portuguesa.

Seu sucessor – Duarte da Costa – foi inexpressivo, mas com o terceiro – Mem de Sá – a colônia foi encontrando seu rumo.

Ficou para trás a exploração do pau-brasil, nossa primeira riqueza, e vieram em seguida os ciclos da cana-de-açúcar e do ouro.

Apesar de este último ter sido iniciado pelos paulistas, o gentio de sua terra continuava à margem da evolução da colônia, sem desfrutar das vantagens dessa descoberta.

Lembramos que, durante todo esse período, o futuro país se desenvolveu, econômica e socialmente, quase só à custa do trabalho escravo.

Milhões de cativos chegaram aos nossos portos e, com a força de seus braços retiraram do solo o açúcar e o ouro.

E São Paulo por onde andava?

 

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Serra do Mar – rodovias Imigrantes e Anchieta – Santos ao fundo – foto web

Isolados pela distância e pelas alturas da Serra do Mar com sua exuberante mata atlântica, os paulistas criaram seu próprio “modus vivendi” junto aos nativos da terra, pouco se importando com os destinos da colônia.

Do litoral ao planalto, a subida de então era feita pelo antigo caminho do Padre José e, posteriormente, com algumas variações, pelo atual Caminho do Mar.

 

 

Diante desse isolamento fica-nos a pergunta?

Qual a razão de aqui terem se estabelecido?

Nós vamos encontrá-la na decisão de Martim Afonso de Souza, que optou pela fundação da vila de São Vicente, como local primitivo de nossa colonização.

Era evidente que o litoral paulista não reunia as menores condições para tanto.

E o grande almirante, logicamente, sabia disso!

Mas, então, qual a razão de sua decisão?

Para responder a esta pergunta temos  que ver as razões de sua viagem.

Sabe-se, pela historiografia moderna, que foram, em ordem de importância, três essas razões:

 

1º – encontrar o caminho para as tão decantadas minas de ouro e prata que os indígenas da região sempre diziam existir para os lados do Oeste;

2º – promover o início da colonização das terras encontradas;

3º – aprisionar navios de outras nações, que traficavam o pau-brasil.

Ao chegar à nova terra, aportando em Pernambuco, deu cumprimento ao 3º item, aprisionando duas naus francesas que por lá se encontravam.

Logo após, deu início à sua mais importante tarefa – encontrar o caminho para o reino do Rei Branco – de quem os indígenas, da então região sul, tanto falavam.

Pela localização geográfica da região em que se encontrava, buscou esse caminho inicialmente pelo Rio Amazonas e, uma vez que nada encontrou, rumou para o sul aportando na Baia de Todos os Santos, onde se encontrou com Diogo Álvares Correia – o Caramuru.

Com este, não conseguiu informação alguma, que o conduzisse ao seu objetivo.

Reiniciou sua viagem e foi aportar na Baia da Guanabara, onde procurou informações com os indígenas, porém nada de objetivo obteve junto aos mesmos.

 

(Nota: Vamos aqui lembrar que a região, então chamada Costa do Ouro, era localizada entre São Paulo e Santa Catarina, pois era aí que se encontravam os três ramais do Caminho do Peabiru. Este caminho se dirigia a Assunção e, daí, podia-se chegar a Potosí (Bolívia), e ao Império Inca, onde se encontravam as famosas riquezas.

Essa era a razão de os indígenas, da Guanabara para cima, não saberem nada a respeito do famoso reino.)

 

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Cananéia – 1640 – Albernaz – web

Sem obter as informações que desejava, Martim Afonso levantou âncoras, rumou novamente para o sul, e se encontrou com o conhecido Bacharel, em Cananéia, no limite sul do atual Estado de São Paulo.

Foi nesse local que realizou sua principal tentativa em encontrar o tão esperado caminho rumo aos Andes – onde se supunha estar o grande reino do ouro e da prata.

Afinal de contas, em Cananéia se iniciava um dos três ramais do Caminho do Peabiru, que seguia rumo às terras paraguaias. Os outros ramais saiam de São Vicente e do Porto dos Patos (atual Florianópolis).

Enquanto importante expedição seguia por terra rumo ao oeste, sua frota novamente seguiu viagem para o sul, até as águas do Rio da Prata.

Por informações anteriormente obtidas, seria esse o melhor dos caminhos para atingir seu objetivo; no entanto, por razões diversas, acolheu novo fracasso.

Retornou a Cananéia, onde não obteve resposta sobre a expedição terrestre que havia expedido e, após reabastecimento, rumou para São Vicente.

 

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Ilha de São Vicente – 1624 – web

Se  por via fluvial a rota ideal para os Andes era o Rio da Prata, Martim Afonso encontrou em São Vicente excelente opção por terra, pois como vimos, era o início de um dos três ramais do Caminho do Peabiru.

Além desse fato, teve a ventura de se encontrar por lá com  João Ramalho, português que vivia entre os índios.

 

Ramalho se mostrou cordial e levou Martim Afonso até o planalto de Piratininga, a fim de conhecer o chefe local – Tibiriçá.

Este último, da mesma forma que Ramalho, foi cordial, dando ao navegador as informações que este tanto queria ouvir.

 No entanto, muito tempo já havia se passado desde sua partida de terras portuguesas, e foi advertido por seu irmão – Pero Lopes – de que suas naus precisavam retornar rápido, pois já estavam no limite de suas condições para serem navegáveis e, além disso, a tripulação já estava diminuída e exausta.

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Fundação de São Vicente – Benedito Calixto – web

Com isso, e já devendo estar, ele próprio, cansado e frustrado depois de tantas idas e vindas, deixou a vila de São Vicente, por ele fundada em 22 de janeiro desse ano de 1532, e retornou a Portugal.

 

(Nota: Ao falarmos em frustração não devemos nos esquecer que sua nau capitânia havia afundado na foz do Rio da Prata, e que, pouco depois, foi a vez de seu irmão – Pero Lopes – naufragar na mesma região. Por último, veio a saber que sua expedição, que partira de Cananéia, havia sido totalmente dizimada por indígenas Carijós.)

 

Em seu retorno à pátria, Martim Afonso levou a certeza de que nessa região paulista se localizava o melhor ponto de partida para uma futura expedição às terras andinas, mas, quis o destino que os espanhóis chegassem primeiro e, Martim Afonso nunca mais se aventurou por terras brasileiras.

Mesmo sem a presença de seu fundador, São Vicente se tornou o início da colonização lusitana em nossas terras, mas acabou perdendo muito de sua importância.

Qual a razão para isso?

Ora, a vila deixou de ser o ponto de partida rumo às almejadas riquezas e, além disso, não possuía condições favoráveis à agricultura de exportação. A cana-de-açúcar, para ser rentável, necessita de grandes áreas para plantio, além de solo fértil.

Sabemos que o litoral paulista não reúne nenhuma dessas condições.

Em sua maior extensão é formado por mangues com pequena largura, devido aos contrafortes da Serra do Mar.  Não poderia haver pior lugar para a instalação de grandes engenhos e, nem ao menos de outras fazendas produtivas, a não ser para consumo local.

Havia serra acima as duas condições ausentes no litoral, porém, com 800 metros de altitude, a muralha atlântica inviabilizava sua conquista.

Uma terceira razão desfavorável ao litoral paulista era o clima – altamente chuvoso e úmido em quase todas as estações do ano.

Como se tudo isso não bastasse, tinha-se a enorme distância em relação a Portugal, dificultando, em muito, a vinda dos lentos veleiros de então.

Já nessa ocasião, como vimos anteriormente, alguns portugueses estavam se fixando em terras nordestinas, que eram muito mais favoráveis para o início colonizador. O solo era fértil, o clima apropriado, não havia a barreira serrana, e eram bem mais próximas da terra lusitana.

Por essa razão, por volta de 1560, enquanto por lá tudo prosperava, com mais de sessenta engenhos, a Capitania de São Vicente não possuía mais do que quatro deles.

Se posteriormente a capitania prosperou, mesmo que vagarosamente, o grande responsável foi Brás Cubas, que dentre tantas obras importantes fundou a cidade de Santos.

 

O Lento Caminhar

 

Isolados pela distância e pelas alturas da Serra do Mar,  os paulistas, recebendo poucos escravos negros, foram para o interior em busca dos braços indígenas.

Mas com eles, também se miscigenaram. Surgiu o “nhém, nhém, nhém”!

Essa mistura de linguagem entre paulistas e indígenas pouco era compreendida pelos visitantes da terra, e isso contribuía para um isolamento ainda maior dos mesmos.

Diante da dificuldade em enfrentar um ambiente tão hostil, os paulistas procuraram nos indígenas a orientação de que precisavam para sua própria sobrevivência. Aprenderam com estes a arte da medicina natural e da alimentação proporcionada pela terra.

Aprenderam a navegar por rios caudalosos, e também como enfrentar animais e índios bravios. Aprenderam, ainda, a conhecer o solo e o clima.

 

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Mulheres paulistas – 1825 – Adrien Aimée Taunay – web
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Rústica vestimenta – homem paulista – século XVII – Thomas Ender – 1840 – web

Cada vez mais isolados confeccionaram suas roupas, armas e utensílios domésticos.

Enfim, os paulistas se embruteceram!

O relógio do tempo pouco se movia, mas eram homens de coragem!

 

Sabiam que seu destino estava em suas mãos.

Índios, animais ferozes, doenças e meio hostil – tudo os ameaçava, mas, …

Foram à luta!

E …

 

se tornaram bandeirantes!

 

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Visão romântica de um bandeirante – aquarela de Eduard Hildebrant – 1844 – web

No ouro e no índio encontraram sua razão de viver.

No primeiro, foi a busca da riqueza movida pela ambição.

No segundo, foi a busca das terras, dos braços, do sexo e da família.

Só havia um caminho – o interior bravio e hostil!

Este tinha que ser domado, para suas fazendas e novas moradias.

Era uma luta de conquistas que somente homens de aço poderiam vencer …

E eles venceram!

O caminho do sertão estava aberto, mas o caminho do grande oceano não poderia ser fechado.

 

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Calçada do Lorena – 1790 – foto EMAE Empresa Metropolitana de Águas e Energia – web

Desde cedo sabiam que a serra tinha que ceder espaço para suas trilhas e caminhadas rumo ao contato com a terra lusitana, e com outras paragens da nascente colônia.

Assim, não seriam os oitocentos metros de altitude da barreira serrana que iriam obrigá-los a viver apenas em seu mundo de planalto isolado.

 

E os caminhos se sucederam – e se alargaram – e estreitaram os laços entre o planalto fértil e a baixada insalubre, porém aberta ao mundo.

 

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Estrada do Vergueiro – local denominado Caveiras – 1913 – Livro Caminho do Mar – relatório de Rudge Ramos – acervo IHGS – pesquisa do autor

Em ocasiões, tudo se perdia – a serra era implacável – não queria ceder espaço aos homens: meses e anos de trabalho tinham que ser refeitos, e trajetos e tecnologia renovados.

Ao dar dois passos para frente e um para trás, lá foram os homens da terra conquistando palmo a palmo o seu lugar por dentre a densa mata, nos vales e precipícios da “guardiã do planalto e vigilante dos mares”.

 

 

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Caminho do Mar – tropeiro – sem data – web

A província se movia. Produzia o auto-sustento, mas não podia prescindir da exportação, pois esse era o objetivo da metrópole, e seus moradores dela necessitavam para melhores vestimentas, utensílios e armas.

A cana-de-açúcar, o trigo, o tabaco, as peles de animais, o gado e as pequenas criações tinham que descer a grande serra.

 

E, nessa ocasião, veio o ouro.

Um quinto tinha que navegar para satisfazer a Coroa, mas a grande riqueza ficou na terra, e a passos lentos, porém decididos, essa terra selvagem cresceu – São Paulo, Itu, Porto Feliz, Sorocaba, Guaratinguetá, Mogi das Cruzes, Bragança, Jundiaí, e tantas outras foram florescendo e frutificando.

Abaixo vemos:

 

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Livro Câmara Municipal de São Paulo – 4 séculos de história – 1998 – acervo do autor

“No morro do Jaraguá, nas proximidades da capital de S. Paulo teve logar as descobertas das primeiras minas de ouro, em 1590, pelo paulista Afonso Sardinha.

 

Foi tão abundante a extração aurífera que deram ao morro o nome de “Perú do Brasil”.

 

O Jaraguá foi, mais tarde, explorado por outros paulistas, inclusive o famoso bandeirante Manuel Preto, que morava na freguesia do Ó.”

 

Freguesias, Câmaras, Juízes, Matrizes, Bispos, Conventos, e outras palavras, passaram a fazer parte do vocabulário local.

Os séculos se arrastaram, e com eles o pulsar da terra se mostrava cada vez mais presente.

Ao nascer da pátria, às margens do Ipiranga, São Paulo já marcava presença na jovem nação.

O “século da luz” vagarosamente iluminou o torrão paulista.

Santos marcava presença destemida e brilhante – seus filhos iam à luta, e as portas para o mundo iam se abrindo passo a passo: de portos internacionais vinham

Barcas;

Sumacas;

Patachos;

Paquetes;

Iates;

Escunas;

Escaleres;

Brigues;

Luggers;

Galeras;

Vapores:

e todos passaram a navegar suas águas.

 

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Santos – porto – vista da Ilha Barnabé – 1889 – Marc Ferrez – Editora Magma
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Santos – porto – 2014 – foto do autor

Os  ancoradouros se tornaram pequenos – o cais se tornou pequeno –

Surgiu o grande porto! E este não cessa de crescer!

Não é apenas no crescimento físico que notamos sua alteração mas, ela se faz presente em métodos mais modernos de embarque e desembarque de materiais e passageiros, bem como na administração e na cessão de terminais para uso privado.

 

 

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Via Anchieta – década de 1960 – foto web
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Rodovia dos Imigrantes – sem data – foto web

Os  caminhos se tornaram pequenos – as estradas se tornaram pequenas – Surgiram as grandes artérias serranas!

Estas não são mais privilégios entre Santos e o planalto; vamos encontra-las por quase toda a extensão do litoral paulista.

 

O “século da luz” nada mais era do que nosso “século inglês” – e deste último viriam à luz os trilhos das ferrovias.

 

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Mapa ferroviário de São Paulo – cerca de 1910 – web

As  obras da São Paulo Railway foram iniciadas em 1860 e, partindo do Valongo, seus trilhos alcançaram as terras do Japi, e destas, novos trilhos foram ao Paraná, ao Rio Grande, ao Paranapanema, ao Mogi-Guaçu, ao Pardo, ao Tietê, a Mantiqueira, a Botucatu, a São Carlos, as Cuestas – e a todos os rincões!

 

Foram trezentos anos de longa e penosa jornada:

de uma pequena vila, aos trilhos ingleses, São Paulo deixou o berço da infância para atingir o panteão dos vitoriosos.

 

De 1560 a 1860 assistimos ao despertar paulista

 

 

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Livro Câmara Municipal de São Paulo – 4 séculos de história – acervo do autor – reprodução abaixo
Transcrição do texto extraído do livro citado acima:

“Finalmente em 1560, estando o Governador-Geral Mem de Sá em São Vicente, decidiu-se ele pela demolição da Vila de Santo André e pela transferência da categoria de vila para São Paulo de Piratininga, com a transferência dos moradores, do pelourinho e de outros símbolos de autonomia.

A partir de 1560, instaurado o regime administrativo da Vila de São Paulo de Piratininga, iniciaram-se as sessões da Câmara, inicialmente nas casas dos próprios vereadores. A Câmara tinha então atribuições administrativas e judiciais no cível e no crime. Cabia-lhe legislar, administrar, policiar e punir.”

 

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Primeiro trecho da notícia do início da construção da SPR – Revista Commercial de 18-05-1860 – acervo da Hemeroteca de Santos – pesquisa do autor

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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