Século XIX – O Brasil e os Ingleses

Ao raiar do século XIX a humanidade se encontrava diante de uma nova era – dava-se início à revolução dos transportes.

 

Por razões óbvias, a água sempre esteve a serviço das civilizações para o transporte de pessoas ou mercadorias. Todos a utilizavam por qualquer razão: uso pessoal ou doméstico, irrigação agrícola, busca de alimentos, comércio, viagens em geral, fugas diversas, ataques militares, etc.

Por tudo isso, os povos sempre procuraram se estabelecer ao longo de grandes rios, ou nas costas marítimas.

Enquanto as necessidades pouco se alteravam, os homens não se preocuparam em trilhar grandes distâncias. No entanto, crescimento populacional, falta de recursos naturais, ameaças da natureza, doenças, lutas ou divergências internas, contratos matrimoniais, ou por outras razões, os espaços circunvizinhos passaram a não atender as necessidades, ou ambições dos homens.

Muitos esforços foram feitos para que os horizontes se alargassem.

Corre a lenda de que até voar o homem tentou.

É evidente que a roda, descoberta e largamente usada desde a aurora humana, foi um fator primordial nessa busca. Havia, no entanto, uma limitação em utilizá-la para grandes distâncias – sua força motora provinha dos braços dos homens, ou do trabalho animal.

Os tempos passaram! Passaram como tudo passa! E eis que, numa busca ambiciosa e também por questões militares, os ingleses acabaram encontrando a “pedra filosofal” – a máquina a vapor. Esta deixou de ser segredo e, em um passe de mágica, a Inglaterra passou a dominar o mundo.

Por ser, ao lado da Holanda, a pioneira do mundo financeiro, não faltaram recursos para que a nova descoberta estivesse ao alcance das ambições britânicas. Com a nova tecnologia, a produção industrial do país alcançou níveis jamais imaginados. Turbilhões de dinheiro, dos quatro cantos do planeta, jorraram nas mãos inglesas. Todos queriam seus produtos – ou eram obrigados a comprá-los!

Dessa forma, os ingleses  puderam deixar de lado a rapinagem que praticavam em tempos anteriores, quando seus piratas, acobertados por Elizabeth I, atacavam portos e navios mercantes, levando terror a todos, com sua extrema violência.

Assim, sentindo os ventos favoráveis, a casa real britânica passou a incentivar, cada vez mais, o incremento da produção. No entanto, não podemos nos esquecer de que excesso de produção faz com que os preços caiam; com isso os países produtores passam a amargar prejuízos. Todos precisam encontrar meios para controlar os mercados consumidores.

De nada adiantaria aos ingleses dominar a tecnologia do vapor e dispor de capitais para incrementar sua produção, se não obtivessem meios de levar seus produtos a terras distantes. Era necessária, para tanto, uma grande frota mercantil, mas esta precisava de proteção, para enfrentar forças inimigas.

Diante desse quadro os ingleses não hesitaram: surgiu a maior frota mercante do mundo, com a consequente maior frota bélica jamais conhecida.

O jogo da gangorra ficou totalmente desequilibrado. França e outros países cederam terreno. A Inglaterra se tornou pequena para guardar tantas riquezas provindas do comércio ultramarino. Seus bancos foram alimentados e, por sua vez, facilitaram os empréstimos. A febre do crescimento desmesurado a todos contagiou. Entretanto, com o passar dos anos, nova razão surgiu para que os ingleses sorrissem com seu promissor futuro – descobriram como colocar rodas em suas mágicas máquinas – surgiram as ferrovias.

Se sua marinha mercante alcançava o litoral de distantes continentes, suas ferrovias podiam alcançar o interior dos mesmos.

O mundo se rendeu!

O mundo se tornou britânico!

Por esse tempo o Brasil caminhava a lentos passos, amargando, ainda, o resultado de tantos anos como colônia portuguesa. Era recente nossa independência. Em que pese o grande valor de nosso monarca – D. Pedro II – como homem honesto e preocupado com os destinos do país, carecíamos de condições financeiras e tecnológicas para acompanhar as grandes nações da época.

Não passávamos de um país agrário!

Fazia-se necessário encontrar o rumo norte, que pudesse nos conduzir a um futuro promissor.

Quem poderia estar ao nosso lado nesse momento crucial?

Ora, não é difícil imaginar que somente os ingleses tinham condições para tal.

Desde o tempo do Brasil-Colônia, os portugueses estiveram intimamente ligados aos ingleses; submetiam-se, inclusive, a imposições que ultrajavam o orgulho lusitano.

Dentre todas as humilhações que Portugal teve que amargar, a maior de todas foi a vinda forçada da casa real para terras brasileiras.

Sabe-se hoje que as tropas napoleônicas foram apenas um pretexto para que os ingleses obrigassem D. João VI a se instalar do lado oeste do Oceano Atlântico.

E isto foi fatal para nosso país! Nossos portos foram escancarados pelos súditos de Sua Majestade britânica.

É verdade que foram abertos a todas as nações amigas, no entanto, os ingleses haveriam de dominar mais de noventa por cento de nosso comercio internacional. Sua arrogância e imposição foi de tamanha ordem que seus produtos tinham mais facilidade de entrar em nossos portos, do que os produtos portugueses. Seus navios bélicos desfilavam por nossas águas, aportando onde bem entendessem, com seus luzentes canhões à mostra, para que todos os “admirassem”, como lindos brinquedinhos – porém mortais!

Sem perda de tempo, foram abarrotando nossos portos com seus produtos, mas, também, vagarosamente foram impondo sua tecnologia.

O Brasil precisava, como vimos, desta última, e ao adquiri-la conseguiu, sem dúvida, inúmeros benefícios, porém a custos astronômicos.

Nossa monarquia se endividou ao extremo. Todas nossas reservas financeiras foram drenadas para os cofres de Sua Majestade a Rainha Vitória.

Vitória para quem?

Para nós restaram derrotas.

Não tivemos meios para, por exemplo, enfrentarmos a violenta seca nordestina, quando, na década de 1860, milhares de retirantes tiveram que procurar novas paragens para sobreviverem, enquanto centenas ou milhares vieram a falecer de fome.

Nada disto incomodava aos donos de nossos portos.

Por que iriam se incomodar?

Drenavam nossas riquezas, e isto era tudo que a eles importava.

O Brasil se dobrou!

Diante de tal quadro, no entanto, recebemos inovações tecnológicas, que seriam de grande utilidade para nosso desenvolvimento, pelo menos, como nação agroexportadora. Dentre essas, as principais foram as ferrovias.

Sem sombra de dúvida, estas facilitaram a penetração para o interior do país – esse grande interior que antes era inalcançável.

De norte ao sul, passamos a assistir a abertura de novas terras para a agricultura e a criação de gado bovino. De forma geral, todas as regiões se beneficiaram; no entanto, em uma delas, esse benefício se mostrou de forma grandiosa – a Província de São Paulo.

Pela riqueza de seu solo e, por possuir em sua costa aquele que se tornaria o maior porto marítimo da América Latina, São Paulo tirou o máximo proveito das ferrovias que chegavam. Com elas, tornou-se a grande força produtiva nacional, que viria a ser preponderante na proclamação da república.

Dentre todas as ferrovias que fincaram pés em nosso solo, merece total destaque a São Paulo Railway, a SPR. Foi pioneira e mola mestra de nossa malha ferroviária.

Estávamos diante de um novo Brasil!

Dessa forma, o século XIX passou, para nós, a ser conhecido como o “século inglês”.

Muitos enaltecem esses benefícios recebidos. Sem dúvida alguma, foram de tal ordem, que deixamos para trás as relíquias de um país colonial parado no tempo.

Poucos, no entanto, se lembram que os ingleses nunca nos viram como nação amiga, na forma como estava na declaração de abertura de nossos portos, por D. João VI.

Simplesmente nos usaram, como de resto a todo o mundo, em benefício próprio.

 

Com alta tecnologia e conduta de um verdadeiro “gentleman” fincaram os pés em nosso solo, e fincaram nossas riquezas em solo britânico.

 

GOD SAVE THE QUEEN!

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